Há momentos em que o tempo parece suspender a própria respiração, convidando-nos a um olhar mais profundo não apenas com a retina física, mas com a lente invisível da alma. Durante uma de nossas reuniões na Academia, enquanto as vozes dos confrades ecoavam pelo salão debatendo as letras e os rumos da nossa cultura, afastei-me por um breve e precioso instante. Postado diante daquela janela de arcos imponentes e venezianas antigas escancaradas para a rua, tive a nítida e arrebatadora sensação de estar contemplando um altar onde a própria história de nossa terra escolheu morar.
Ali, emoldurado pela alvenaria secular, descortinava-se diante de mim o diálogo perfeito e silencioso entre a cultura e o sagrado. A pesada moldura de madeira, ladeada pelos arabescos de ferro forjado da sacada uma testemunha calada de tantas tertúlias, versos declamados e prosas compartilhadas ao longo dos anos, abria-se reverente para a imponente fachada da igreja. Com seus traços de outrora, as portas e janelas num azul que tenta imitar a imensidão, as cúpulas desgastadas pelo tempo e as cruzes apontando tenazes para o infinito, o templo erguia-se como um farol de fé. Era como se a arquitetura conversasse em murmúrios, ligando a mente ao espírito.
Entre o aconchego intelectual do casarão acadêmico e a serenidade pétrea do templo religioso, a vida cotidiana insistia em pulsar, teimosa e bela, no rés do chão. O traçado dos paralelepípedos, o vaivém discreto dos carros estacionados na praça, a luz do dia que desenha sombras caprichosas no calçamento… Tudo ali revela o contraste absoluto entre o efêmero da nossa rotina apressada e o eterno, representado pelas paredes que nos vigiam desde séculos passados. Uma promessa silenciosa de que o “hoje”, tão logo passe, também se tornará saudade.
Olhar por aquela abertura de luz é entender, na pele e no coração, a essência e o peso do nosso fazer literário. A cultura, erguida tijolo a tijolo pelo esforço humano de registrar o pensamento, as artes e os sonhos, dá as mãos ao sagrado, que habita o silêncio absoluto e a transcendência daquelas velhas paredes de cal e pedra. Ambas as forças partilham do mesmo desejo perene e comovente: vencer o esquecimento e alcançar um sopro de imortalidade. Nós, escritores, somos no fundo os arquitetos de uma memória que não aceita se apagar.
Naquela moldura de luz e sombra, compreendi que cada crônica que tecemos, cada palavra que ressoa no eco de nossas reuniões, nada mais é do que uma tentativa sincera de capturar o indizível. E ali, banhado pela paz daquele cenário estupendo que une a praça e o altar, o profano e o divino, percebi um refúgio exato para a alma. É diante de visões como essa, onde o esforço da cultura humana abraça a grandiosidade do sagrado, que descubro, afinal, o lugar exato onde guardei minhas lembranças: no limiar sagrado entre a palavra que escrevemos e o mistério insondável da vida.
Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras
Cadeira Nº 40 – Patrono: José Ribamar S. dos Reis