
E lá vamos nós outra vez.
A televisão mudou de assunto. Entre uma novela, um jornal e um programa qualquer, surge a velha conhecida propaganda eleitoral.
É impressionante como, nessa época, o Brasil se transforma.
Na televisão, somos um país quase perfeito. Há candidatos que prometem um Estado melhor, um país mais rico, mais seguro, mais justo, com saúde, educação, emprego e dignidade para todos.
Parece até que basta apertar o botão da urna para o paraíso começar.
Mas há algo que me chama especialmente a atenção.
Agora aparecem candidatos dizendo que vão “mudar o país”.
Outros vão além: dizem que vão “restaurar o Brasil”.
Restaurar?
Confesso que fiquei preocupado.
Será que alguém poderia me explicar?
Restaurar significa consertar aquilo que foi quebrado. Significa devolver alguma coisa ao estado em que ela estava antes.
Então surge a pergunta inevitável:
Em que época o Brasil esteve tão perfeito assim para precisar ser restaurado?
Eu devo ter perdido alguma coisa.
Porque o Brasil que conheço sempre foi um país de contradições. Um país de riquezas imensas e desigualdades enormes. De gente trabalhadora e de oportunidades que não chegam para todos. De hospitais que salvam vidas e de hospitais onde pessoas esperam demais. De escolas excelentes e de outras onde falta quase tudo.
Esse é o Brasil real.
Mas, durante a campanha eleitoral, aparece outro Brasil.
Um Brasil produzido em estúdio.
Nele, o candidato sorri, olha para a câmera e promete resolver tudo.
Se a propaganda pudesse, provavelmente colocaria até o sol nascendo por trás do candidato, acompanhado de uma música emocionante.
E nós, pobres eleitores, ficamos tentando descobrir onde termina a proposta e começa a fantasia.
É claro que o país pode mudar.
Precisa mudar.
Há muita coisa que precisa ser corrigida, melhorada e, em alguns casos, completamente transformada.
Mas mudar um país não é trocar uma frase de efeito por outra.
Não é dizer “vamos fazer”.
É explicar como fazer.
Quanto vai custar.
De onde virá o dinheiro.
Quem será responsável.
Qual será o prazo.
E, principalmente, quais serão os resultados.
Porque promessa eleitoral não paga hospital, não constrói escola, não gera emprego e não coloca comida na mesa.
Promessa é fácil.
Difícil é governar.
Difícil é administrar um país cheio de problemas, equilibrar as contas, combater a corrupção, melhorar os serviços públicos, enfrentar a violência, gerar oportunidades e ainda prestar contas ao cidadão.
Isso não cabe em um comercial de trinta segundos.
Talvez por isso seja tão mais fácil prometer.
E nós, eleitores, também temos a nossa parcela de responsabilidade.
Às vezes queremos acreditar.
Queremos aquele candidato que fala aquilo que gostaríamos de ouvir.
Queremos alguém que diga que amanhã tudo será diferente.
Mas política não é conto de fadas.
Governar é fazer escolhas.
E toda escolha tem consequências.
Por isso, quando alguém aparecer na televisão dizendo que vai “restaurar o Brasil”, talvez devêssemos desligar por alguns segundos o entusiasmo e ligar a memória.
Perguntemos:
Restaurar qual Brasil?
O Brasil de quem?
O Brasil de quando?
E por que precisamos voltar para lá?
Talvez essas perguntas sejam mais importantes do que todos os discursos que vamos ouvir daqui até o dia da eleição.
Porque o eleitor não deveria escolher quem promete o país mais bonito.
Deveria escolher quem apresenta o caminho mais sério para construir o país possível.
No fundo, talvez o que precise ser restaurado não seja o Brasil.
Talvez seja a nossa capacidade de pensar antes de acreditar.
E isso, infelizmente, nenhum candidato poderá fazer por nós.
A urna é eletrônica.
Mas a escolha continua sendo nossa.
E, dessa vez, seria bom apertar o botão com os olhos bem abertos.
Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras
Cadeira Nº 40, tendo como Patrono: José Ribamar S. dos Reis