
Todas as manhãs, quando o dia começa a nascer, sinto que a vida me oferece uma nova oportunidade, o amanhecer chega devagar, trazendo consigo a luz que se espalha pelo céu, o canto dos pássaros e aquela tranquilidade que parece abraçar a alma, tudo isso percebo quando estou aguardando o dia chegar deitado em minha rede na área.
Há algo de especial nas primeiras horas do dia, talvez seja o silêncio, ainda não interrompido pelos ruídos da cidade, talvez seja o sol, que se levanta no horizonte como um artista que, com pincel dourado, colore as nuvens e anuncia que a vida continua.
Ou talvez seja simplesmente a oportunidade de estar vivo.
O que me traz o amanhecer?
Traz-me a esperança de que o dia será bonito, mesmo quando a vida insiste em apresentar suas dificuldades, traz-me a certeza de que, apesar das perdas, das saudades e das marcas que o tempo deixou, ainda existem motivos para agradecer.
Agradecer pelo ar que respiro, pela saúde que me permite caminhar, pelo café que aquece minhas manhãs e pelo privilégio de contemplar a natureza, agradecer pela família, pelos filhos, pelos netos e, principalmente, pelo amor de Lu, minha companheira de tantos anos, com quem aprendi que o amor verdadeiro não envelhece: amadurece.
Enquanto observo, vejo o mundo despertando, o vento toca meu rosto, as árvores movimentam suas folhas e os pássaros parecem conversar entre si, são pequenos acontecimentos, quase imperceptíveis para quem não tem o privilégio de observar o tempo, mas que para mim carregam uma beleza imensa.
Com o tempo, aprendi que a felicidade nem sempre chega acompanhada de grandes acontecimentos, muitas vezes, ela se esconde nas coisas mais simples: num abraço demorado, num beijo inesperado, num olhar de carinho, numa conversa com um filho ou na risada de um neto.
O amanhecer me ensina a perceber essas pequenas riquezas.
Também me traz lembranças, algumas chegam suaves, como a brisa da manhã; outras carregam a saudade daqueles que partiram e deixaram lugares vazios em nossa história. Penso nos dias que não voltam, nas vozes que o tempo silenciou e nos abraços que ficaram guardados na memória.
Mas não vejo a saudade apenas como tristeza, ela também é uma forma de amor. Só sentimos falta daquilo que um dia nos fez felizes, das pessoas que tocaram nossa vida e dos momentos que mereceram permanecer.
E, quando o sol aparece entre as nuvens, sinto que a própria natureza me sussurra uma mensagem: não importa quão escura tenha sido a noite, sempre existe a possibilidade de um novo começo.
O amanhecer me traz a vontade de escrever.
É nesse encontro entre a luz e o silêncio que muitas palavras nascem, recolho pensamentos, observo detalhes e deixo que as lembranças encontrem seu caminho até o papel, escrevo sobre o que vejo, mas, sobretudo, sobre o que sinto e sobre a tempo que vivi.
Cada manhã é uma página em branco, nela, posso registrar um sentimento, uma lembrança, uma saudade ou simplesmente a beleza de um dia que começa. E, ao escrever, descubro que a vida é feita de histórias que merecem ser contadas, mesmo aquelas que parecem pequenas.
O amanhecer também me traz fé.
A fé de que Deus continua presente nos detalhes, na luz que chega, na família que tenho e nas oportunidades que recebo. Nem sempre compreendo os caminhos da vida, mas aprendi a caminhar com confiança, levando no coração a gratidão por tudo o que vivi e por tudo o que ainda posso viver.
Aos 71 anos, compreendo que o tempo não deve ser medido apenas pelos anos que passam, mas pelas experiências que nos transformam, pelos amores que cultivamos e pelas lembranças que construímos.
Cada amanhecer é um lembrete de que ainda há tempo para amar, perdoar, abraçar, escrever e dizer às pessoas importantes o quanto elas significam para nós.
Quando o dia finalmente se ilumina, não sei o que ele me reserva. Talvez traga boas notícias, talvez desafios, mas isso já não me assusta como antes. Aprendi que não temos controle sobre tudo o que acontece, mas podemos escolher a maneira como recebemos cada novo dia.
Por isso, quando contemplo o sol nascendo, faço uma pequena oração de agradecimento.
Obrigado, meu Deus, por mais uma manhã.
Obrigado pela vida, pela minha família, pelos amigos, pelas lembranças e até pelas dificuldades, que me ensinaram a ser mais paciente e a valorizar o que realmente importa.
E, enquanto a luz se espalha pelo mundo, guardo comigo uma certeza:
O amanhecer não me traz apenas um novo dia. Traz-me a oportunidade de continuar sendo quem sou, de amar um pouco mais, de agradecer um pouco mais e de escrever, com o coração, mais uma página da minha história.
Porque, enquanto houver luz no céu e amor no coração, sempre haverá uma razão para esperar o amanhã.
Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a Cadeira Nº 40, Patroneada por José Ribamar S. dos Reis.