As sandálias que guardam meus passos, por Roberto Franklin

Há objetos que ultrapassam a condição de coisas. Tornam-se parte da nossa história, guardiões de lembranças, companheiros silenciosos de uma vida inteira. Foi isso que senti quando encontrei, esquecidas em um canto, as sandálias que por tantos anos caminharam comigo e, de certo modo, ainda caminham.
Estavam gastas, com o couro marcado pelo tempo, as solas quase lisas, como se quisessem mostrar o quanto foram fiéis em me levar adiante. Não eram apenas calçados. Eram testemunhas. E, ao segurá-las nas mãos, senti como se estivesse tocando não só em matéria, mas em pedaços de mim mesmo, impressos em cada dobra, em cada desgaste.
As sandálias guardam meus passos. Guardam as manhãs apressadas, quando o sol ainda nascia e eu, com elas nos pés, atravessava a cidade para cumprir meus compromissos. Guardam também os finais de tarde vagarosos, quando o caminhar era pretexto para pensar na vida, conversar comigo mesmo e, muitas vezes, silenciar dores que não ousava dividir com ninguém.
Lembro-me de quantas vezes pisei na terra molhada depois da chuva, sentindo o cheiro forte que subia do chão. Lembro do pó das estradas de interior, grudado nelas como se quisesse também fazer parte da minha história. Cada mancha, cada marca, cada ranhura, parecia trazer de volta um instante vivido.
Mas não eram apenas os meus passos que estavam ali. Nas sandálias, também reconheci a herança de meu pai. Ele tinha o costume de calçar suas próprias sandálias, sempre simples, e com elas vinha almoçar aos sábados em nossa casa. Ao olhar as minhas, lembrei das dele: gastas, firmes, cheias de histórias. As sandálias de meu pai carregavam não só o peso dos seus pés, mas também a dignidade de sua caminhada. Hoje, quando penso nas minhas, percebo que, de certa forma, continuo seguindo as marcas deixadas por ele.
Há uma poesia escondida nos objetos. Eles não falam, mas gritam memórias. Uma sandália velha pode parecer insignificante a quem não a usou, mas para quem caminhou dentro dela, é quase um livro inteiro. Ao encontrá-las, compreendi que o tempo não leva tudo: algumas coisas resistem, como testemunhas silenciosas que nos lembram de quem fomos e de onde viemos.
Sei que um dia, inevitavelmente, elas deixarão de existir. O couro se desfará, a sola se partirá, e tudo virará pó. Mas os passos que deram comigo, esses ninguém poderá apagar. Eles já estão impressos na estrada da minha vida, e talvez, em algum canto da memória dos meus, ainda haverá a lembrança: “ali ia ele, com suas sandálias, deixando no chão um rastro de presença e de amor”.
As sandálias que guardam meus passos não são apenas calçados velhos. São parte da minha história, pedaços concretos do meu tempo, lembranças que insistem em caminhar comigo mesmo quando já não caminho mais.

Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras
Cadeira Nº 40 – Patrono: José Ribamar S. dos Reis