

Há lugares que a gente visita. E há lugares que, de alguma maneira, visitam a nossa alma.
Foi assim naquela tarde no Pantanal.
O sol começava a descer lentamente, como se não tivesse pressa de partir. O céu, tomado por tons de laranja e vermelho, parecia em chamas. Diante de mim, o rio se transformava em um enorme espelho, refletindo a luz do entardecer em milhares de pequenos brilhos.
Então apareceu o barco.
Pequeno diante da imensidão das águas, seguia seu caminho deixando atrás de si uma longa esteira. E foi justamente essa esteira que me chamou a atenção: parecia uma estrada dourada, aberta pelo barco sobre o rio, seguindo em direção ao sol.
Fiquei olhando aquela cena e pensei em como a vida também é assim.
Navegamos por águas tranquilas e por outras nem tanto. Deixamos marcas por onde passamos, algumas profundas, outras quase invisíveis. Encontramos pessoas, fazemos amigos, construímos uma família, acumulamos histórias, amores, perdas, alegrias e saudades.
E o tempo vai passando.
O barco da fotografia não sabe exatamente o que encontrará depois daquela curva. Apenas segue. Talvez seja essa a grande lição que o Pantanal nos oferece: não precisamos conhecer todo o caminho para continuar navegando.
O importante é seguir.
Naquele instante, o sol parecia apontar uma direção. Não necessariamente um destino, mas um horizonte.
Talvez porque a vida não seja sobre chegar ao fim da viagem. Seja sobre apreciar o caminho, perceber a beleza escondida nas pequenas coisas e guardar na memória aqueles momentos em que o mundo parece parar por alguns segundos.
O Pantanal tem esse poder.
Ali, a natureza não grita. Ela sussurra.
O silêncio das águas, o voo distante de uma ave, o movimento delicado do vento e aquele barco cortando o rio fazem a gente perceber que existe uma beleza que não precisa de palavras.
E eu fiquei ali, contemplando.
O barco se afastava.
O sol continuava descendo.
A estrada dourada sobre as águas ia ficando cada vez mais longa.
Talvez aquela fotografia tenha registrado muito mais do que um pôr do sol no Pantanal. Talvez tenha registrado uma metáfora da própria existência: um homem dentro de um barco, navegando pelo tempo, deixando atrás de si suas lembranças e seguindo em direção ao horizonte.
Porque, no final, é isso que fazemos.
Navegamos.
E enquanto houver luz no horizonte, sempre haverá um caminho para seguir.
Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras
Cadeira Nº 40 – Patrono: José Ribamar S. dos Reis