
O sábado chega devagar, trazendo consigo uma promessa que não está escrita no calendário, mas mora no coração: a espera de reunir toda a família.
Durante a semana, a casa conhece a tranquilidade dos dias comuns. Eu e Lu seguimos nossa rotina, dividindo o café, os silêncios, os pequenos gestos de carinho e essa bonita cumplicidade que o tempo construiu entre nós. A vida a dois tem sua própria música, feita de olhares, conversas e da presença de quem amamos.
Mas o sábado é diferente.
O sábado chega trazendo a expectativa dos passos que se aproximam, das vozes que logo preencherão os cômodos, dos abraços que ficaram guardados durante a semana. É como se a casa soubesse que, dentro de algumas horas, deixará de ser apenas o nosso refúgio para se transformar no cenário de uma grande celebração.
Acordo mais cedo, talvez pela ansiedade boa de quem espera um encontro especial. O café parece ter outro aroma. O sol entra pela janela com mais alegria, e até os pássaros, no jardim, parecem participar da festa que ainda nem começou.
Olho para Lu e sorrio.
Ela conhece esse sentimento. Sabe que, quando os filhos e os netos chegam, alguma coisa dentro de nós se transforma. O cansaço desaparece, as preocupações perdem força e o coração encontra uma juventude que o tempo jamais conseguiu levar.
O sábado é o dia em que terminamos, por algumas horas, a vida a dois e começamos a vida de todos nós.
Não que a nossa vida de casal perca sua beleza. Pelo contrário. É justamente o amor que construímos juntos que abre as portas para essa família. Foram os anos de companheirismo, os sonhos compartilhados, as dificuldades enfrentadas e os filhos que chegaram trazendo novos sentidos à nossa existência.
Hoje, a nossa história não cabe mais somente em duas pessoas.
Ela se espalhou pelos filhos, cresceu nos netos e ganhou novos nomes, novas risadas e novas lembranças. Cada um que chega traz consigo um pedaço da nossa história e acrescenta outro capítulo àquilo que começamos a escrever há tantos anos.
E então a campainha toca.
O silêncio da casa se desfaz.
Chegam os abraços, os beijos, as perguntas, as brincadeiras e aquela desordem bonita que só uma família reunida sabe produzir. Alguém fala mais alto, outro conta uma novidade, os netos correm, e nós, os avós, ficamos observando tudo com um sorriso que não precisa de explicação.
Às vezes, sento-me por alguns instantes e apenas contemplo.
Vejo os filhos conversando, os netos crescendo diante dos meus olhos, Lu envolvida em seus cuidados e a casa cheia de vida. Penso que a felicidade nem sempre chega acompanhada de grandes acontecimentos. Muitas vezes, ela está ali, sentada à mesa, dividindo uma refeição, contando uma história ou pedindo mais um abraço.
É nessas horas que compreendo o verdadeiro significado de ter uma família.
Não é a quantidade de pessoas reunidas, mas o amor que faz cada uma delas sentir que pertence àquele lugar.
O sábado passa depressa. As horas, que pareciam tão longas enquanto esperávamos, escorrem entre risadas, conversas e despedidas. E quando a casa volta a ficar silenciosa, resta uma saudade antecipada do próximo encontro.
Olho para Lu, seguro sua mão e agradeço a Deus.
Agradeço pelos filhos, pelos netos, pela nossa caminhada e pela oportunidade de viver esses momentos que nenhum dinheiro poderia comprar.
A vida a dois nos ensinou a caminhar juntos. A família nos ensinou que o amor, quando compartilhado, não diminui: multiplica-se.
E assim termina mais um sábado.
A casa volta ao silêncio, mas as paredes parecem guardar as vozes, os abraços e a alegria de quem esteve ali. Nós dois permanecemos, lado a lado, como no início de nossa história, apenas um pouco mais ricos de lembranças.
Porque o sábado não é apenas o dia em que a família se reúne.
É o dia em que o nosso amor ganha voz, a casa ganha vida e o coração descobre que não existe festa mais bonita do que aquela em que todos os nossos estão presentes.
Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a Cadeira Nº 40, Patroneada por José Ribamar S. dos Reis.