Os Segredos que Guarda uma Fotografia Antiga, por Roberto Franklin

Há fotografias que guardam muito mais do que uma imagem. Guardam pessoas, lugares, sentimentos, sonhos, encontros e até despedidas que, naquele instante, ninguém sabia que seriam despedidas.

Uma fotografia antiga é uma espécie de máquina do tempo. Basta segurá-la entre os dedos e olhar demoradamente para aqueles rostos para que, de repente, o passado volte. O papel pode estar amarelado, as bordas gastas, a imagem marcada pelo tempo, mas há algo que não envelhece: aquilo que sentimos quando reconhecemos alguém.

É curioso como uma fotografia consegue fazer o coração reencontrar a juventude. Ao olhar para uma imagem antiga, não vejo apenas o homem que sou. Vejo também o menino que fui, os sonhos que carregava, a inocência de quem acreditava que havia tempo suficiente para viver tudo.

Hoje sei que o tempo não espera. Talvez por isso as fotografias sejam tão preciosas: elas fazem aquilo que nós não conseguimos fazer. Interrompem o tempo.

Existe, porém, um grande mistério escondido em cada fotografia: aquilo que ela não mostra.

Ela registra os rostos, mas não os pensamentos. Mostra o sorriso, mas não revela se havia tristeza por trás dele. Mostra duas pessoas lado a lado, mas não conta o que existia entre elas. Mostra uma família reunida, mas não revela os sonhos, as preocupações e os sentimentos de cada um.

A fotografia é silenciosa. Somos nós que damos voz a ela.

E, quando damos voz, surgem histórias.

Aquela senhora talvez fosse uma avó amorosa. Aquele homem sério talvez fosse um pai que trabalhava muito e demonstrava seu amor em silêncio. Aquela criança talvez fosse alguém que, décadas depois, se tornaria um adulto cheio de responsabilidades. Aquele casal talvez estivesse começando uma história de amor que duraria toda a vida. Ou talvez estivesse vivendo um momento que o destino levaria embora.

A fotografia não explica. Apenas pergunta.

E a memória responde.

Existem fotografias que nos fazem sorrir. Outras nos fazem chorar. Algumas conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo, principalmente quando retratam pessoas que já partiram.

Nessas imagens encontramos uma espécie de reencontro. Podemos olhar novamente para aquele rosto, reparar no sorriso, nos olhos, na maneira de vestir, e até imaginar a voz.

É como se, por alguns segundos, a pessoa estivesse novamente diante de nós.

Por isso, algumas fotografias não deveriam ser escondidas no fundo de uma gaveta. Elas precisam estar ao alcance das mãos, porque há momentos em que sentimos necessidade de conversar com quem já não pode nos responder.

Também existem fotografias de lugares que já desapareceram. Ruas, casas, escolas, praças e lojas que fizeram parte de nossas vidas e que hoje existem apenas na memória.

Uma fotografia antiga de uma cidade é também uma fotografia do tempo.

Ela mostra como éramos, onde vivíamos e como o mundo se transformou. Os prédios mudaram, as árvores desapareceram, as pessoas seguiram outros caminhos, mas, dentro daquela fotografia, tudo permanece exatamente como era.

É possível voltar.

Não com os pés, mas com a memória.

Há também fotografias que escondem histórias de amor. Talvez sejam as mais delicadas para o coração. Um simples olhar fotografado há décadas pode ainda carregar uma emoção que o tempo não conseguiu apagar.

Porque existem sentimentos que não obedecem ao calendário.

Alguns amores deixam de fazer parte da nossa vida, mas continuam fazendo parte da nossa história. Saem da presença e passam a morar na memória.

Talvez por isso uma fotografia antiga seja tão poderosa: ela nos lembra que certas histórias podem terminar, mas não deixam de existir.

Hoje temos milhares de fotografias guardadas nos celulares. Fotografamos tudo, a qualquer hora. Nunca tivemos tantas imagens e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenhamos dado tão pouco valor a cada uma delas.

Antigamente, fotografar era quase um ritual. Escolhia-se o momento, preparava-se a família, esperava-se a revelação e depois a fotografia era cuidadosamente guardada.

Ela era rara.

Hoje podemos fazer dezenas de fotografias em poucos minutos. Mas quantas delas ainda estarão presentes na memória de nossos filhos e netos daqui a cinquenta anos?

Talvez sejam justamente as fotografias simples que permanecerão. Aquelas sem perfeição, sem pose, com um sorriso espontâneo, uma criança correndo ou uma família reunida.

Porque a vida verdadeira nunca foi perfeitamente enquadrada.

Uma fotografia também nos mostra como mudamos.

Quando colocamos lado a lado uma fotografia antiga e uma atual, percebemos que o rosto mudou, os cabelos mudaram, o corpo mudou. Mas existe algo que permanece: o olhar.

Talvez nossos olhos sejam o lugar onde o tempo encontra mais dificuldade para apagar quem fomos.

A fotografia nos lembra que envelhecer não significa abandonar o passado. Significa carregar conosco todas as versões de nós mesmos.

A criança que fomos, o jovem que sonhou, o adulto que lutou e o homem ou a mulher que hoje contempla o caminho percorrido.

Há fotografias que registram começos: o primeiro dia de escola, um casamento, o nascimento de um filho, uma viagem, uma formatura.

E existem aquelas que, sem que ninguém soubesse, registraram finais: o último aniversário, o último encontro, a última reunião de família, o último retrato de alguém que partiria pouco depois.

Naquele momento ninguém sabia.

Todos sorriam.

A vida seguia.

Somente muitos anos depois aquela fotografia ganharia outro significado.

Talvez seja por isso que devemos olhar para fotografias antigas com mais atenção.

Não olhar apenas para a imagem, mas para o tempo que existe dentro dela.

Pensar nas pessoas que caminharam conosco, nas que ficaram pelo caminho, nas que ainda estão ao nosso lado e nas que virão depois.

Porque uma fotografia não pertence somente ao passado.

Ela pertence também ao futuro.

Um dia, talvez, um neto encontre uma fotografia nossa e pergunte:

“Quem era ele?”

E alguém responderá:

“Era seu avô.”

Talvez então contem uma história, expliquem onde a fotografia foi tirada, quem estava ao lado e o que acontecia naquele dia.

E a fotografia continuará cumprindo sua missão: contar a história de alguém que viveu.

No fundo, uma fotografia antiga é uma pequena cápsula de eternidade. Ela guarda rostos, lugares, encontros, ausências, amores e saudades. Guarda pedaços de uma vida que já passou, mas que insiste em permanecer.

Esse talvez seja o seu maior segredo:

*uma fotografia não consegue impedir que o tempo passe, mas consegue impedir que tudo desapareça.*

Por isso, quando encontrarmos uma fotografia antiga, não devemos simplesmente guardá-la novamente.

Devemos olhar.

Demoradamente.

Com carinho.

Talvez naquele rosto exista uma história que ainda não conhecemos. Talvez naquele sorriso exista uma lágrima escondida. Talvez naquele abraço exista um amor que atravessou décadas. Talvez naquela criança exista uma parte de nós que ainda vive.

E talvez, entre aquelas imagens amareladas pelo tempo, esteja guardada uma parte da nossa própria história.

Uma parte que julgávamos esquecida.

Uma parte que o tempo levou.

Mas que a fotografia, silenciosamente, decidiu devolver.

Porque algumas lembranças não morrem.

Elas apenas ficam esperando.

Esperando que um dia abramos uma gaveta, encontremos uma fotografia antiga e descubramos que o passado nunca esteve tão distante quanto imaginávamos.

Ele estava ali.

Guardado.

Silencioso.

Esperando apenas que nossos olhos o encontrassem novamente.

Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras
Cadeira Nº 40
Patrono: José Ribamar S. dos Reis