
Mas o que mesmo é a saudade? Como expressar o significado de uma palavra que somente existe no vocabulário brasileiro com tamanha intensidade?
A despeito dessa questão, certo é que “saudade” é uma das palavras mais profundas que conhecemos. Tamanha complexidade, carrega sentimentos que não cabem facilmente em definições simples.
Rememorar não é apenas lembrar de alguém de quem se sente falta. Saudade é um estado emocional de algo ou alguém, cujas marcas ficaram impressas em nossa existência.
Há quem diga que a saudade dói, mas ela também revela amor. Algo que de alguma maneira nos conforta, trazendo para perto, ainda que em pensamento, uma sensação física da presença.
Sentimento nobre, não está para qualquer um. Apenas existe para quem ousou viver intensamente, fazer de outras pessoas importantes com quem realmente vale a pena se importar.
Daí porque tal palavra ganha contorno ainda mais profundo quando está ligada à perda de alguém amado. A saudade de quem partiu é diferente de qualquer outra.
Isso porque não há expectativa de reencontro, pelo menos não neste plano concreto. O que resta são lembranças, carregadas de significado emotivo que se traduz em saudade.
A saudade fala do que permanece em nosso âmago, ainda que tudo lá fora mude. Ela resiste e atravessa o tempo e espaço, superando o esquecimento devido à sua lembrança permanente e afetiva.
O sentimento pulsa, balança e grita, como se vozes continuassem ecoando dentro da memória e do coração. Uma memória boa, pura, que passa a morar nos detalhes mais simples: uma música, um perfume, uma comida, um momento.
Ela acompanha as distâncias que a vida traz, rápidas ou duradouras. Amigos que se mudaram, familiares separados, amores interrompidos pelo tempo ou circunstâncias. E lá está ela: a saudade.
Curiosamente o seu tamanho não se mede por distância, mas sua intensidade, que retrata o quão profundo algo ou alguém significa.
Pode ser uma época. A saudade do tempo despreocupado de criança, quando só queríamos correr, brincar e fazer peraltices. Da liberdade quase irresponsável e dos superpoderes da adolescência. Quanta saudade!
Pode se manifestar em um misto de dor e doçura. Mas, de alguma maneira, sentir saudade é uma forma de manter vivos os vínculos que o tempo tentou afastar.
No fim, a saudade configura uma prova latente das essências mais nobre do que é ser humana e revela há pessoas que passam por nossas vidas e deixam vestígios.
Perto, longe, neste ou noutro plano, a saudade não se explica, apenas se sente como um amor puro que encontrou uma maneira de continuar a existir.
Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA) e presidente da Academia Ludovicense de Letras. É membro da Academia Ludovicense de Letras, da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da Academia Literária do Maranhão e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.