O 7 de setembro, celebrado em todo o Brasil como o Dia da Independência, marcando o momento em que Dom Pedro I proclamou a separação do Brasil do Reino de Portugal em 1822. É um feriado nacional, com desfiles cívico-militares, eventos culturais e manifestações populares.
Em São Luís, esse feriado ganha um significado especial por estar colado ao aniversário da cidade, comemorado em 08 de setembro.
A Independência do Brasil, comemora-se também em 28 de julho, data da chamada adesão ao Maranhão, ocorrida em 1823.
Vamos a um episódio que reúne as duas datas:
José Sarney, maranhense e presidente do Brasil entre 1985 e 1990, esteve na Inglaterra em visita oficial, o próprio Sarney escreveu sobre sua passagem pela lápide de Lord Cochrane, na Abadia de Westminster, em um artigo publicado no Metrópoles.
Lord Thomas Cochrane foi um almirante britânico que teve papel decisivo na consolidação da Independência do Brasil, especialmente no Maranhão. Mas sua atuação foi controversa: ele saqueou São Luís, agiu com brutalidade e depois foi agraciado com o título de Marquês do Maranhão por Dom Pedro I — algo que Sarney critica duramente.
No artigo, Sarney diz: “Apesar do que Cochrane fez aqui — botou a cidade a saque — e do muito mal que disse do Brasil, dom Pedro deu-lhe o título de Marquês do Maranhão. Passei ao largo de sua lápide na Abadia de Westminster. A História é outra, bem outra.”
Ou seja, ele confirma que evitou prestar homenagem. A frase atribuída a Sarney — “um traidor, um pirata, que saqueou minha terra” — parece ser uma dramatização popular ou uma reconstrução oral da atitude que ele realmente teve.
Em 1823, Cochrane foi enviado por Dom Pedro I para consolidar a independência nas províncias do Norte, onde ainda havia resistência portuguesa. No Maranhão, ele conseguiu expulsar os portugueses e garantir a adesão da província ao Império do Brasil. Mas o que veio depois manchou sua reputação:
• Retorno em 1824: Cochrane voltou a São Luís alegando necessidade de “pacificar” a província.
• Destituição da Junta Provisória: Ele removeu o governo local, que havia sido eleito com sua aprovação anterior.
• Confisco do Tesouro: Sob ameaça de canhões e tropas (que ele nem possuía), obrigou a Câmara a entregar 106 mil contos de réis — o equivalente a toda a reserva financeira da província2.
• Fuga e demissão: Ameaçado de prisão se voltasse ao Rio, fugiu para a Europa. Em 1827, foi oficialmente demitido pelo governo brasileiro.
Como a historiografia maranhense o enxerga
Autores locais, como Antonio Carlos Lima (Academia Maranhense de Letras), tratam Cochrane como um personagem ambíguo:
• De libertador a usurpador: A memória popular em São Luís o vê como alguém que “saqueou a terra”, ecoando o sentimento de traição.
• Revisões recentes: A biografia de George Ermakoff, Lorde Thomas Cochrane – Um guerreiro escocês a serviço da Independência do Brasil, tenta reabilitar sua imagem, destacando sua importância estratégica para a manutenção do território nacional. Mas não esconde seus defeitos: insubordinação, obsessão por dinheiro e arrogância.
No túmulo, um título controverso
Na Abadia de Westminster, em Londres, está gravado o título que Dom Pedro I lhe concedeu: Marquês do Maranhão. Para muitos maranhenses, isso é um insulto à memória local.
Lord Thomas Cochrane era, oficialmente, almirante da Marinha Imperial Brasileira, nomeado por Dom Pedro I em 1823 para liderar as operações navais que consolidariam a independência do Brasil. Mas a linha entre herói naval, corsário e pirata é tênue — e no caso de Cochrane, historiadores e maranhenses têm opiniões bem divididas.
Oficialmente: Almirante e estrategista – Cochrane foi contratado como comandante da recém-criada Marinha Imperial. Recebeu plenos poderes militares e políticos para pacificar províncias resistentes à independência. Foi decisivo na expulsão dos portugueses da Bahia, Maranhão e Pará. Ganhou o título de Marquês do Maranhão, concedido por Dom Pedro I.
Na prática: Corsário com licença, pirata por conveniência?
Cochrane tinha fama de “lobo do mar”, apelido dado por Napoleão Bonaparte. Atuou como corsário em outras nações — ou seja, combatente naval com autorização oficial para atacar navios inimigos. No Brasil, embora fosse almirante, seus métodos eram típicos de corsário: confisco de tesouros, chantagens políticas e ameaças militares. Em São Luís, confiscou o tesouro da província sob ameaça de bombardeio, mesmo sem ter munição suficiente para cumprir a ameaça.
O que diz a historiografia? Alguns autores o chamam de “falso libertador do Norte”, como Hermínio Conde. Outros, como Oliveira Lima, o exaltam como “grande condottiere da emancipação do Novo Mundo”. A biografia de George Ermakoff reconhece sua importância, mas não esconde sua obsessão por dinheiro e poder.
Corsário a serviço do Império – Cochrane não era um pirata no sentido ilegal, mas se comportava como um corsário, mesmo ocupando o posto de almirante. Ele agia com autonomia, buscava lucro pessoal e usava táticas agressivas — tudo sob o manto da legalidade imperial. Para o Maranhão, especialmente São Luís, ele é lembrado mais como saqueador do que como libertador.
perfil histórico comparativo entre Thomas Cochrane, Francis Drake e Jean Lafitte, três figuras que, embora atuassem em contextos distintos, compartilham o título informal de “piratas oficiais”. Essa análise revela como o Brasil também teve seu próprio “lobo do mar” com licença imperial.
Perfis Históricos Comparativos: Cochrane, Drake e Lafitte
Característica Thomas Cochrane 🇧🇷🇬🇧 Francis Drake 🇬🇧 Jean Lafitte 🇫🇷🇺🇸
Época de atuação Início do século XIX Século XVI Início do século XIX
Origem Escócia Inglaterra França
Status oficial Almirante da Marinha Imperial Brasileira Corsário licenciado pela Rainha Elizabeth I Corsário aliado dos EUA na Guerra de 1812
Motivação principal Expulsar portugueses e consolidar a independência do Brasil Saquear navios espanhóis e enriquecer a Coroa britânica Lucro pessoal e influência política
Táticas utilizadas Ameaças de bombardeio, confisco de tesouros, diplomacia agressiva Ataques surpresa, navegação ousada, pirataria disfarçada Contrabando, espionagem, alianças locais
Legado histórico Libertador polêmico no Brasil; Marquês do Maranhão Herói nacional britânico; vice-almirante Figura ambígua: herói em Nova Orleans, criminoso em outros lugares
Relação com o Estado Contratado por Dom Pedro I com plenos poderes Corsário com carta régia Tolerado e depois perseguido pelos EUA
Controvérsias Saque do tesouro do Maranhão, ambição pessoal Enriquecimento próprio, massacres Traições, negócios obscuros
Cochrane: O “Drake” do Brasil?
Assim como Drake, Cochrane atuava com respaldo oficial, mas com liberdade para agir como bem entendesse.Ambos confundiam os limites entre honra militar e pirataria, usando a guerra como meio de enriquecimento. Cochrane, no Brasil, ameaçou bombardear São Luís e confiscou o tesouro da província, mesmo sem munição suficiente — um blefe típico de corsário.
Lafitte: O Corsário Político – operava como contrabandista e espião, mas foi essencial na defesa de Nova Orleans contra os britânicos. Cochrane também misturava interesse pessoal com serviço público, negociando recompensas e títulos com Dom Pedro I. Ambos tinham dupla imagem: heróis em tempos de guerra, problemáticos em tempos de paz.
O Brasil teve, sim, seu “pirata oficial”
Thomas Cochrane representa o arquétipo do corsário imperial: um homem de guerra contratado para libertar, mas que também saqueava. Assim como Drake e Lafitte, ele navegava entre a glória e a ganância. O título de Marquês do Maranhão não apaga o fato de que, para muitos maranhenses, ele foi mais saqueador do que libertador.
O Dia em Que São Luís Foi Ameaçada por um Pirata Britânico
São Luís, 1823. O sol ainda se espreguiçava sobre os telhados coloniais quando o rumor se espalhou como pólvora: “Um navio inglês está na baía. Dizem que é comandado por um corsário!” Os sinos das igrejas dobraram com mais pressa que fé. A cidade, acostumada aos ventos do Atlântico, agora sentia o bafo quente da guerra.
No convés do Pedro I, o almirante Thomas Cochrane observava a costa com olhos de lobo do mar. Escocês de nascimento, corsário por vocação, e agora almirante da Marinha Imperial Brasileira — um título que lhe dava autoridade, mas não lhe tirava o gosto pelo ouro.
Cochrane não vinha com canhões em riste, mas com algo mais perigoso: um blefe armado de arrogância e estratégia. Mandou emissários à cidade com uma carta: “Entreguem o tesouro da província. Caso contrário, bombardearei São Luís.”
O presidente da província, acuado, reuniu seus conselheiros. “Mas ele não tem munição suficiente!” — sussurrou um coronel. “E se for só ameaça?” — ponderou outro. Mas o medo é mais eficaz que pólvora, e Cochrane sabia disso.
Enquanto os moradores espiavam pelas frestas das janelas, o tesouro provincial — ouro, prata, documentos e promissórias — foi entregue ao britânico. Não houve tiros. Não houve resistência. Apenas o silêncio constrangido de uma cidade que se viu saqueada por quem deveria libertá-la.
Cochrane partiu com o tesouro e com a honra de São Luís em seus porões. Mais tarde, Dom Pedro I o recompensaria com o título de Marquês do Maranhão. Mas para os ludovicenses, ele seria lembrado por outro nome: o pirata que veio com bandeira imperial e partiu com o ouro da província.
A responsabilidade de Dom Pedro I no episódio do saque do Tesouro do Maranhão por Lord Cochrane é complexa e compartilhada, mas não isenta. Ele foi o autor intelectual da missão, ao contratar Cochrane como almirante da Marinha Imperial com poderes quase absolutos para consolidar a independência nas províncias do Norte e Nordeste. Mas os métodos usados por Cochrane — especialmente o confisco forçado do tesouro maranhense — ultrapassaram o que o Imperador esperava ou autorizava diretamente.
Responsabilidade de Dom Pedro I
Contratou Cochrane com base em recomendações de José Bonifácio, confiando em sua fama de herói naval e libertador no Chile e Peru. Deu a ele plenos poderes militares e diplomáticos, sem supervisão direta, o que permitiu abusos como o ocorrido em São Luís. Nomeou-o Marquês do Maranhão e condecorou-o com a Grã-Cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul, antes de saber dos excessos.
Reação ao saque do Tesouro – Quando soube do confisco de 106 contos de réis do Tesouro maranhense, feito sob ameaça de bombardeio sem munição, o governo imperial ficou indignado. O Ministro da Marinha chegou a ordenar a prisão de Cochrane caso ele retornasse ao Rio de Janeiro. Cochrane, percebendo o risco, fugiu para a Europa e nunca mais voltou ao Brasil. Dom Pedro I não revogou oficialmente os títulos concedidos, mas o episódio manchou a reputação de Cochrane e gerou desconforto político.
Um imperador entre a glória e o constrangimento
Dom Pedro I reconhecia o papel decisivo de Cochrane na consolidação da independência, mas não podia ignorar os métodos abusivos. A reação do governo foi ambígua: reconhecimento oficial seguido de afastamento silencioso. Cochrane saiu do Brasil como herói condecorado, mas com ordens de prisão pendentes e reputação arranhada.
A resposta de Thomas Cochrane ao episódio do confisco do Tesouro do Maranhão foi marcada por silêncio estratégico e fuga diplomática. Ele não ofereceu uma justificativa pública direta ao governo brasileiro após a denúncia — pelo menos não de imediato. Em vez disso, evitou o confronto, saiu do país e mais tarde escreveu suas memórias, onde tentou recontar os fatos sob sua ótica heroica.
Em 1825, recebeu sua carta de demissão oficial, assinada por Dom Pedro I. Em 1827, foi formalmente desligado do serviço brasileiro por “ausentar-se sem autorização”.
Em 1859, Cochrane publicou suas memórias sob o título Narrativas de serviços no libertar-se o Brasil da dominação portuguesa, onde: Minimizou os abusos cometidos, apresentando-se como herói incompreendido. Justificou suas ações como necessárias para garantir a adesão do Maranhão à independência. Ignorou ou suavizou o episódio do confisco, tratando-o como parte da estratégia militar.
Cochrane nunca se retratou formalmente pelo saque do Tesouro. Sua “resposta” foi fugir, escrever uma versão favorável da história e manter sua reputação como libertador — mesmo que, para os maranhenses, ele tenha deixado a marca de um corsário com licença imperial.
Leopoldo Gil Dulcio Vaz é membro da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a cadeira 21, tendo como Patrono Manuel Fran Pacheco.