Tenho presente o final da década de oitenta do século passado. O capitalismo globalista pôs em cena o conto pueril de que a história chegou ao fim e nada mais há para mudar e aperfeiçoar. Os partidos, salvo raríssimas exceções, traíram a matriz e a designação e renderam-se à ‘democracia liberal’, falha de liberalidade e implementadora de reformas conducentes à involução civilizacional.
A selvajaria dos mandarins passou a cavalgar o mundo a toda a brida e dividiu-o em dois hemisférios. O deles e dos seus afilhados tornou-se um salão de festas; o dos sujeitos da mó de baixo um campo de resignação. O despudor foi tanto que os levou a contratar pregadores de um destino inevitável: as gerações seguintes estão condenadas a viver pior do que as anteriores, a não aceder a empregos consentâneos com a sua instrução, a auferir menores salários, a não ter garantidas as aposentações, a não poder contar com cuidados de saúde e o Estado, a depositar as parcas poupanças em entidades privadas e a comprar a elas o incerto amparo.
Sob este manto hediondo a classe dos piratas e super-ricos cresceu em cima de tragédias criadas para esse efeito. A ‘estética do horror’ adveio e foi paulatinamente normalizada pela cobertura televisiva das guerras e dos genocídios, da transumância de milhões de pessoas à procura de segurança e alimento, dos afogamentos de migrantes nas águas do Mediterrâneo e demais sevícias. E tudo isto é engendrado e celebrado com banquetes e bailes nos encontros e cerimoniais dos capitalistas globais.
E a reação e indignação dos cidadãos? A maioria deixou-se alienar pela novilíngua posta a circular. O individualismo leva-os a contentar-se com as migalhas que sobram do festim dos poderosos. Não se dão conta ou não querem saber das centrais da desinformação; e alegremente cumprem o ritual de votar numa coisa que já não existe, sufragando assim o sistema mais hipócrita até agora surgido na história da humanidade. Não precisamos de olhar para o estrangeiro, nomeadamente os EUA; também aqui o sentido clássico da democracia é enterrado todos os dias, ao som da epifania da falsidade e do grunhido das hienas que se alimentam da podridão. Até quando?!
Jorge Bento é Membro Correspondente da Acadeima Ludovicense de Letras.



