Sempre que a luz faltava, naquele final dos anos 1970 e começo dos anos 1980 em São Luís do Maranhão, minhas filhas – Loreta e Louise – corriam para pegar um livro na estante para que eu fizesse a leitura. Pediam à mãe uma vela – Rápido, rápido, Mãe, uma vela… Papai vai ler… está faltando luz…
Era uma verdadeira alegria… depois, vieram os netos… a mesma cena se repetia… As filhas, já adultas, mães, corriam pegar velas e o livro na estante e – Papai vai ler para nós…
Infelizmente, essas cenas já não mais acontecem… não que não falte mais luz, à noite, em São Luís… a preferência, agora, para filhas, netos é o celular. O livro fica esquecido na estante…
O livro de que falo – o preferido nas noites sem luz elétrica – era As Aventuras do Barão de Münchhausen, obra clássica de ficção humorística baseada nas histórias fantásticas e exageradas atribuídas ao Barão de Münchhausen. O livro reúne aventuras impossíveis, contadas como se fossem relatos verdadeiros, explorando o absurdo, a imaginação e a sátira.
O protagonista, o Barão de Munchausen, narra suas próprias aventuras extraordinárias. Em seus relatos, ele: Viaja à Lua e a outros lugares inacessíveis. Cavalga balas de canhão. Enfrenta monstros marinhos gigantes. Sobrevive a situações impossíveis. Realiza feitos sobre-humanos usando apenas astúcia e coragem. O tom é sempre humorístico. O objetivo não é convencer o leitor da veracidade dos fatos, mas divertir por meio do exagero e da fantasia.
A obra é considerada uma das precursoras da literatura fantástica e de aventura voltada tanto para jovens quanto para adultos.
O livro foi escrito por Rudolf Erich Raspe (1736–1794), um escritor, cientista e bibliotecário alemão. Nasceu em Hanôver, Alemanha, em 1736. Estudou direito e ciências naturais. Trabalhou como bibliotecário e pesquisador. Interessava-se por arqueologia, mineralogia e história natural. Mudou-se para a Inglaterra após problemas financeiros e acusações de fraude. Publicou em inglês, em 1785, a primeira versão de Baron Munchausen’s Narrative of his Marvellous Travels and Campaigns in Russia. Morreu na Irlanda em 1794. Características: Mais curta e direta. Forte tom satírico. Pretende ridicularizar relatos de viagem exagerados e narrativas supostamente “verídicas” muito populares no século XVIII. Linguagem relativamente sóbria, apesar das situações absurdas. O humor surge principalmente do contraste entre a seriedade do narrador e o impossível das aventuras. Exemplo do efeito cômico: o barão descreve um feito impossível com absoluta naturalidade, como se fosse algo comum.
Embora Raspe tenha sido o primeiro autor a transformar as histórias em literatura, versões posteriores foram ampliadas por outros escritores, especialmente pelo poeta alemão Gottfried August Bürger (1747–1794), responsável por uma versão muito popular em alemão. Publicada em 1786, não fez apenas uma tradução para o alemão. Ele expandiu a obra e reescreveu muitos trechos. Características: Mais longa e elaborada. Acrescenta novas aventuras. Linguagem mais rica e literária. Humor mais exuberante e fantasioso. Maior preocupação com entretenimento do que com a sátira social. Torna o personagem mais carismático e lendário. Esta, a versão que tinha e lia, embora tivesse a original.
Curiosamente, a fama internacional do Barão deve muito a Bürger. Muitos estudiosos consideram a obra um exemplo precoce do que hoje chamaríamos de fantasia cômica ou até de realismo fantástico humorístico. Ela influenciou autores tão diferentes quanto E. T. A. Hoffmann, Jules Verne, Italo Calvino e até alguns aspectos da literatura fantástica moderna.
O Barão de Munchausen existiu de fato. Seu nome era Hieronymus Karl Friedrich von Münchhausen (1720–1797) – Nobre alemão. Oficial de cavalaria a serviço do exército russo. Tornou-se famoso por contar histórias exageradas sobre suas experiências militares e de caça. Era conhecido por divertir os convidados com relatos inverossímeis.
As narrativas literárias ampliaram enormemente essas histórias, transformando-o em um personagem lendário.
A história inspirou: Livros infantis e juvenis. Histórias em quadrinhos. Peças teatrais. Séries de TV. Filmes. O mais famoso talvez seja o filme “As Aventuras do Barão de Munchausen” (1988), dirigido por Terry Gilliam, que transforma as aventuras fantásticas em uma grande fantasia visual.
Da fama do personagem surgiu o termo médico “Síndrome de Münchausen”, utilizado para descrever pessoas que inventam ou provocam sintomas de doenças para receber atenção. O nome faz referência ao hábito do barão literário de contar histórias exageradas, embora a síndrome não tenha relação direta com o personagem histórico.
As Aventuras do Barão de Munchausen é um clássico da literatura fantástica e humorística, criado por Rudolf Erich Raspe a partir das histórias atribuídas a um nobre alemão real. A obra celebra a imaginação, o exagero e o prazer de contar histórias impossíveis.
Mas não foi exatamente o celular que acabou com as aventuras das noites sem luz: foi a Ciência, na medida em que as meninas e meninos aprendiam-nas… Diria mesmo que foi a mudança da nossa relação com o impossível.
No século XVIII, quando Raspe e Bürger escreveram suas versões, o mundo ainda continha enormes zonas de mistério. Havia continentes pouco conhecidos pelos europeus, expedições retornando com relatos estranhos, mapas incompletos e uma confiança maior no testemunho individual. Nesse contexto, uma história sobre viajar à Lua ou ser engolido por um peixe gigante podia ser imediatamente reconhecida como exagero, mas se alimentava de um horizonte onde o desconhecido ainda parecia ilimitado.
Com o avanço da ciência, especialmente após Newton, a natureza passou a ser entendida como regida por leis universais: a gravidade vale para todos os corpos; projéteis seguem trajetórias previsíveis; seres vivos possuem limitações biológicas; o espaço é um ambiente hostil à vida humana. O resultado foi que muitas aventuras do Barão deixaram de ser apenas improváveis e passaram a ser demonstravelmente impossíveis.
Mas há um paradoxo interessante. A ciência matou certos tipos de fantasia… Antes, alguém podia imaginar: uma viagem à Lua em um balão; um cavalo voando; um homem puxando a si mesmo pelos cabelos para sair de um pântano.
A física moderna mostra por que isso não funciona. Nesse sentido, a ciência restringiu o campo do maravilhoso espontâneo. Ela exige coerência com as leis conhecidas da natureza …, mas criou outros tipos de fantasia. A própria ciência abriu portas para imaginações que Münchhausen jamais poderia conceber: buracos negros; galáxias distantes; viagens relativísticas no tempo; universos paralelos; inteligência artificial; manipulação genética; vida extraterrestre.
Júlio Verne, H. G. Wells, Arthur C. Clarke e Isaac Asimov surgem justamente dessa transformação. O maravilhoso não desaparece; ele muda de forma.
O Barão representa outro modo de imaginar. Münchhausen pertence a uma tradição muito antiga, parecida com a dos contadores de causos, dos mitos e das histórias folclóricas.
Nessas narrativas, a pergunta não é: “Isso poderia acontecer?”
Mas: “Que história mais extraordinária consigo contar?”
A lógica é poética, não científica.
Por isso o Barão pode: cavalgar uma bala de canhão; costurar um cavalo ao meio; viajar à Lua por meios absurdos.
O prazer do leitor não está na plausibilidade, mas na invenção.
A ciência acabou com a imaginação? Provavelmente não. O filósofo Gaston Bachelard dizia que a imaginação não é destruída pelo conhecimento; ela se desloca. Quando uma explicação racional ocupa um espaço, a imaginação procura outro. O oceano deixou de ser o reino dos monstros marinhos, mas o cosmos tornou-se o reino dos buracos negros. A floresta encantada perdeu seus dragões, mas a física quântica ganhou fenômenos que parecem quase mágicos para o senso comum.
Talvez tenhamos perdido algo
Há, contudo, uma crítica feita por alguns escritores e filósofos: ao explicar cada vez mais o mundo, a modernidade pode enfraquecer o sentimento de encantamento. O sociólogo Max Weber chamou isso de “desencantamento do mundo” (Entzauberung): a ideia de que a racionalização substitui mistérios por explicações.
Nesse sentido, o Barão de Münchhausen pode ser visto como uma figura de resistência. Ele continua contando histórias impossíveis em um mundo que exige provas.
Por isso, ainda hoje, suas aventuras permanecem divertidas. Não porque acreditamos nelas, mas porque nos lembram de uma capacidade humana muito antiga: a de imaginar além do que é permitido pela realidade.
Talvez a grande lição de Münchhausen seja que a fantasia não existe para competir com a ciência. Ela existe para responder a uma pergunta diferente. A ciência pergunta: “Como o mundo funciona?”. A fantasia pergunta: “E se ele funcionasse de outro modo?”.
Essas duas perguntas não são inimigas; são complementares.
Leopoldo Gil Dulcio Vaz é membro da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a cadeira 21, tendo como Patrono Manuel Fran Pacheco.