O rio que passa diante dos meus olhos, por Roberto Franklin

Fico, às vezes, diante de um rio, apenas observando suas águas. Não tenho pressa de chegar a lugar algum. Deixo que o tempo se acomode dentro de mim, enquanto acompanho o movimento silencioso da correnteza. Há algo de profundamente humano nesse encontro entre o homem e o rio. Talvez porque ambos carreguem histórias, atravessem caminhos e guardem, nas profundezas, segredos que ninguém consegue decifrar por inteiro.
O rio passa diante dos meus olhos como quem não tem compromisso com a chegada. Corre, serpenteia, contorna obstáculos, acaricia as margens e segue seu destino. Não olha para trás. Não lamenta as pedras que encontra pelo caminho, tampouco se revolta com os desvios que a natureza lhe impõe. Apenas segue. E, nesse seguir constante, ensina-me algumas das lições que a vida, tantas vezes, demora a nos ensinar.
Fico olhando suas águas e imagino a areia que repousa no fundo do seu leito. Ali, escondida dos olhos de quem observa a superfície, ela recebe o movimento da correnteza, é revolvida, deslocada, limpa aos poucos. O rio trabalha em silêncio, levando consigo pequenas partículas, desfazendo acúmulos, renovando o que parecia imóvel.
E penso que talvez a alma humana também precise de um rio.
Um rio que passe diante dos nossos olhos e que, sem pedir licença, encontre o caminho para dentro de nós. Um rio capaz de lavar não apenas a areia acumulada no fundo do seu leito, mas também os pensamentos que o tempo deposita em nossa memória.
Porque a vida, meu Deus, vai deixando resíduos dentro da gente.
São as palavras que nos feriram, as despedidas que não estávamos preparados para enfrentar, os sonhos que ficaram pelo caminho, as ausências que aprenderam a morar conosco. São as preocupações que carregamos sem necessidade, os arrependimentos que insistimos em alimentar e as lembranças que, embora bonitas, às vezes nos prendem a um tempo que já não existe.
Tudo isso vai se depositando no fundo do coração, como a areia no leito de um rio.
E, quando percebemos, estamos carregando mais do que deveríamos. Pensamos demais no que passou, preocupamo-nos excessivamente com o que ainda não chegou e esquecemos de viver a beleza simples deste instante.
É então que me sento diante do rio e deixo que ele me ensine.
Observo a água correndo, escuto o silêncio que existe por trás do seu movimento e sinto uma paz que não encontro nas palavras. Não preciso conversar com ninguém. Não preciso explicar minhas inquietações. O rio não me faz perguntas, não julga minhas escolhas, não exige respostas. Ele apenas passa diante dos meus olhos, oferecendo-me a oportunidade de olhar para dentro de mim.
E, pouco a pouco, meus pensamentos parecem acompanhar a correnteza.
Aquilo que antes me inquietava começa a perder o peso. As preocupações se tornam menores, as lembranças encontram seu lugar e a alma, antes agitada, aprende a descansar. Não é que os problemas desapareçam. Eles continuam existindo, como as pedras escondidas no fundo do rio. A diferença é que já não permito que todos eles interrompam a minha paz.
Aprendo, diante da água, que nem tudo precisa ser resolvido imediatamente. Há situações que pedem paciência, sentimentos que precisam de tempo e perguntas que talvez nunca encontrem respostas. A vida não nos entrega todas as explicações. Às vezes, oferece apenas a oportunidade de continuar caminhando.
E continuar também é uma forma de coragem.
Na minha idade, aprendi que o tempo não volta para buscar aquilo que deixamos para trás. Os dias seguem seu curso, as estações mudam, os rostos envelhecem e as casas que um dia abrigaram nossas maiores alegrias acabam se transformando em lembranças. O mundo continua se movimentando, mesmo quando nosso coração deseja permanecer em algum lugar do passado.
Mas não quero viver como quem tenta represar um rio.
Quero guardar as boas lembranças sem me tornar prisioneiro delas. Quero recordar os amores, os encontros, as conversas, os abraços e os domingos que ficaram gravados na memória. Quero agradecer pelos que caminharam comigo e compreender que algumas pessoas, embora já não estejam ao meu lado, continuam vivas naquilo que me ensinaram.
A saudade também faz parte da correnteza. Não precisamos expulsá-la. Basta aprender a conviver com ela, deixando que passe por nós sem levar embora a alegria de estarmos vivos.
Talvez seja isso que o rio esteja tentando me dizer.
A água que vejo agora não é a mesma que passou há alguns minutos. Cada instante é novo, ainda que o rio conserve seu nome, seu leito e sua direção. Também nós mudamos sem perceber. Somos feitos de tudo aquilo que vivemos, mas não precisamos permanecer iguais ao que fomos.
Podemos mudar de pensamento, rever escolhas, perdoar, recomeçar e descobrir novas razões para sorrir. Podemos abandonar velhas mágoas e abrir espaço para sentimentos mais leves. Podemos compreender que envelhecer não significa apenas acumular anos, mas também aprender a retirar da vida aquilo que já não nos faz bem.
O rio lava a areia no fundo do seu leito.
E eu, diante dele, peço que lave também meus pensamentos.
Que leve as inquietações desnecessárias, dissolva os ressentimentos que ainda insistem em permanecer e me ajude a enxergar com mais clareza o que realmente importa. Que eu não desperdice os dias alimentando tristezas antigas nem permita que o medo do amanhã roube a serenidade do presente.
Quero ter a leveza da água que encontra passagem entre as pedras. Quero aprender a contornar os obstáculos sem perder minha essência. Quero compreender que a força nem sempre está em resistir, mas também em saber ceder, adaptar-se e continuar.
E, sobretudo, quero conservar dentro de mim a capacidade de me emocionar com as coisas simples.
O movimento de um rio. O vento tocando meu rosto. A luz do sol refletida na água. O silêncio de uma tarde. Uma lembrança boa chegando sem aviso. A voz de quem amo. Um abraço dos meus netos. A presença de Luciane ao meu lado, companheira de tantos anos, compartilhando comigo a beleza e as dificuldades da caminhada.
Afinal, são essas pequenas coisas que dão sentido à existência. Não precisamos de grandes acontecimentos para encontrar a felicidade. Às vezes, basta parar, olhar e reconhecer a riqueza que existe naquilo que já temos.
O rio continua passando diante dos meus olhos.
A areia permanece no fundo do seu leito, mas a água não se cansa de tocá-la, movimentá-la e renovar sua superfície. E eu permaneço aqui, um homem diante da natureza, tentando compreender a mim mesmo por meio desse espetáculo tão antigo quanto a própria vida.
Talvez amanhã eu volte a este lugar. Talvez encontre o rio com outra luz, outro vento, outro movimento. Mas sei que também chegarei diferente, porque ninguém atravessa o tempo sem se transformar.
Enquanto isso, fico olhando.
Deixo que o rio siga seu caminho e que meus pensamentos encontrem o deles. Não peço que a correnteza leve minhas lembranças, pois elas são parte de quem sou. Peço apenas que leve o peso desnecessário que algumas delas deixaram em mim.
Quero continuar lembrando, mas sem sofrer por tudo aquilo que não posso mudar. Quero continuar sonhando, mesmo sabendo que o futuro não me pertence por inteiro. Quero viver o presente com a gratidão de quem já recebeu muito da vida e ainda encontra motivos para agradecer.
E, quando finalmente me levantar para ir embora, levarei comigo a certeza de que alguma coisa mudou, mesmo que ninguém perceba.
O rio terá lavado a areia do seu leito.
E eu terei permitido que ele lavasse um pouco da minha alma.
Porque, no fim das contas, talvez a sabedoria esteja justamente nisso: compreender que a vida não foi feita para que guardemos tudo, mas para que saibamos o que merece permanecer e o que precisa partir.
O rio sabe.
Ele não se apega à água que passa, não tenta recuperar a correnteza perdida. Apenas segue, levando consigo o que pode levar e deixando nas margens aquilo que já não lhe pertence.
E eu, que tantas vezes procurei respostas nas páginas dos livros e nas estradas da existência, descubro agora, diante dessas águas, uma verdade simples e profunda:
Há rios que atravessam a paisagem. E há rios que atravessam a gente.
O primeiro corre diante dos nossos olhos.
O segundo corre dentro de nós, lavando silenciosamente os pensamentos, aliviando as dores e ensinando ao coração que sempre é possível recomeçar.
E, enquanto houver água correndo, horizonte adiante e vida dentro de mim, quero continuar aprendendo com o rio.
Sem pressa.
Sem medo.
Com a alma mais leve e o coração agradecido.
Porque a água passa.
O tempo passa.
A vida passa.
E nós, se aprendermos a deixar ir aquilo que nos pesa, também poderemos passar por ela com mais serenidade, carregando apenas o essencial: o amor que oferecemos, as lembranças que nos fazem bem, a fé que nos sustenta e a esperança de que cada novo dia ainda pode trazer alguma coisa bonita.
O rio continua passando diante dos meus olhos.
E, enquanto ele passa, sinto que alguma coisa dentro de mim também corre, se renova e encontra, enfim, a paz que tanto procurava.

Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a Cadeira Nº 40, Patroneada por José Ribamar S. dos Reis.