Entre o antipetismo, o antibolsonarismo e a conveniência do poder, por Roberto Franklin

Há algo de profundamente preocupante na política brasileira: a capacidade de transformar adversários em inimigos e fazer da rejeição ao outro a principal razão para escolher quem deve governar o país. Em vez de votarmos na esperança de um projeto melhor, muitas vezes votamos movidos pelo medo de que o outro lado vença. A política, que deveria ser o espaço do debate de ideias, converte-se numa disputa de ressentimentos, na qual o importante não é saber quem tem as melhores propostas, mas impedir que o adversário chegue ao poder.
É nesse ambiente que prosperam o antipetismo e o antibolsonarismo. Dois sentimentos distintos, mas que frequentemente se alimentam da mesma lógica: a rejeição política acima de qualquer avaliação racional. O eleitor, tomado pela aversão a determinado grupo, passa a tolerar no próprio campo comportamentos que condenaria com veemência se fossem praticados pelo adversário. O erro do outro é imperdoável; o erro do aliado, porém, ganha explicações, justificativas e até defensores apaixonados.
E assim caminhamos, prisioneiros de nossas próprias contradições.
No Brasil, a coerência parece ter se tornado uma virtude rara. Há quem condene alianças políticas feitas por conveniência quando elas favorecem seus adversários, mas as considere necessárias e legítimas quando beneficiam seus próprios candidatos. A história, as convicções e até as antigas acusações parecem perder importância diante da possibilidade de conquistar ou conservar o poder.
O pragmatismo político, que poderia ser um instrumento legítimo de governabilidade, transforma-se, não raro, numa desculpa para alianças que antes seriam consideradas impensáveis. Antigos desafetos apertam as mãos, velhas divergências desaparecem dos discursos e personagens que ontem se acusavam mutuamente passam a dividir o mesmo palanque. Tudo em nome da governabilidade, da sobrevivência política ou da derrota do inimigo comum.
Mas cabe perguntar: governabilidade a qualquer preço? União em torno de quais princípios? E, sobretudo, a serviço de quem?
Uma democracia não pode ser reduzida à escolha entre dois medos. O eleitor merece mais do que uma campanha construída sobre a rejeição ao adversário. Merece propostas, compromissos, transparência e, acima de tudo, respeito à inteligência de quem deposita nas urnas a esperança de dias melhores.
Também é necessário refletir sobre o papel do Supremo Tribunal Federal. Uma instituição encarregada de guardar a Constituição precisa inspirar confiança pública, não pela popularidade de seus integrantes, mas pela consistência jurídica de suas decisões, pela imparcialidade e pelo respeito aos limites de suas atribuições.
As decisões judiciais que anulam processos, por exemplo, exigem uma compreensão cuidadosa. Anular uma condenação por razões processuais ou por incompetência do juízo não significa, automaticamente, declarar a inocência de alguém quanto a todos os fatos investigados. Da mesma forma, não se pode transformar a anulação de uma decisão em prova automática de perseguição política. É preciso examinar os fundamentos jurídicos, as circunstâncias de cada caso e os efeitos concretos da decisão.
O problema surge quando a Justiça passa a ser avaliada exclusivamente pelo resultado que produz. Se uma decisão favorece meu candidato, é justa; se beneficia meu adversário, é suspeita. Se condena quem eu rejeito, é sinal de justiça; se anula a condenação, é sinal de impunidade. Nesse raciocínio, a lei deixa de ser uma referência comum e passa a ser interpretada conforme as conveniências de cada grupo.
Não há democracia sólida quando a confiança nas instituições depende de quem está sendo julgado.
O mesmo vale para os políticos. Não basta vestir a camisa da direita ou da esquerda, proclamar-se defensor da democracia ou apresentar-se como salvador da pátria. É preciso demonstrar, na prática, compromisso com a ética, com a liberdade, com a responsabilidade pública e com o respeito às regras constitucionais. Nenhum campo político possui o monopólio da virtude, assim como nenhum está imune a erros, abusos ou contradições.
Como brasileiro que acompanha há décadas as mudanças do país, inquieta-me perceber quanto espaço perdemos discutindo pessoas e quanto pouco avançamos discutindo princípios. Brigamos por líderes, defendemos partidos como se fossem times de futebol e, enquanto isso, problemas essenciais continuam à espera de soluções: a educação deficiente, a saúde pública sobrecarregada, a violência, a desigualdade e a corrupção.
A política deveria ser o instrumento para enfrentar essas dificuldades, não um espetáculo permanente de hostilidade.
Talvez o maior desafio do eleitor brasileiro seja recuperar a independência de pensamento. Não aceitar que a paixão partidária substitua o julgamento crítico. Não confundir lealdade com submissão. Não transformar a discordância em ofensa nem a preferência eleitoral em autorização para ignorar os erros de quem recebe nosso voto.
Afinal, o político passa, o partido muda de nome, as alianças se desfazem e os antigos inimigos podem tornar-se aliados de ocasião. O cidadão, entretanto, permanece com as consequências das escolhas que ajudou a fazer.
Por isso, precisamos aprender a desconfiar não apenas dos adversários, mas também dos nossos favoritos. É justamente quando alguém conquista nossa admiração política que devemos redobrar a atenção, porque nenhuma liderança merece uma procuração em branco.
O Brasil não precisa escolher entre o antipetismo e o antibolsonarismo como se essas fossem suas únicas possibilidades. Precisa superar a política do ódio e construir uma cultura democrática na qual a verdade não seja propriedade de um partido, a Justiça não seja instrumento de conveniência e a ética não dependa da cor da bandeira.
A democracia não se fortalece quando vencemos nossos adversários a qualquer preço. Fortalece-se quando somos capazes de exigir dos nossos aliados a mesma honestidade que cobramos dos nossos opositores.
No fim das contas, a pergunta que deveria orientar o eleitor não é simplesmente quem eu quero derrotar, mas que país desejo construir.
Enquanto a primeira pergunta dominar a política brasileira, continuaremos elegendo representantes movidos pelo medo, celebrando alianças contraditórias e confundindo a vitória de um grupo com a vitória do Brasil.
E o Brasil, esse país imenso, generoso e tantas vezes decepcionado, continuará esperando que seus cidadãos compreendam uma verdade elementar: nenhum político é maior do que a democracia, nenhum partido é maior do que o Brasil e nenhuma paixão ideológica deveria ser maior do que a nossa consciência.

Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a Cadeira Nº 40, Patroneada por José Ribamar S. dos Reis.