
Naquele dia, quando me aproximei de ti para cumprimentar-te, algo inesperado aconteceu. Segurei tuas mãos entre as minhas e percebi que estavam frias. Foi um instante breve, quase imperceptível para quem estivesse ao nosso redor, mas, dentro de mim, aquele simples gesto despertou uma inquietação que não consegui explicar.
Por que tuas mãos estavam tão frias? Seria apenas uma reação ao ambiente, uma circunstância banal, dessas que acontecem todos os dias? Ou haveria algo mais, uma emoção escondida, uma espécie de tremor silencioso que o corpo revelava sem que a boca precisasse confessar?
Confesso que aquele toque me pareceu diferente. Havia nele alguma coisa que ultrapassava os limites de um cumprimento habitual. Foi como se, por alguns segundos, o mundo ao nosso redor tivesse diminuído o ritmo, permitindo que eu percebesse detalhes que, em outras circunstâncias, talvez passassem despercebidos.
Fiquei pensando se não seria a emoção de um reencontro. Não necessariamente um reencontro de pessoas que passaram muito tempo afastadas, mas daqueles encontros em que duas almas parecem reconhecer alguma coisa uma na outra, mesmo quando a razão não consegue encontrar uma explicação. Às vezes, a vida nos aproxima de alguém e desperta sentimentos que julgávamos adormecidos, lembranças que nem sabíamos guardar ou desejos que permaneciam silenciosos em algum lugar do coração.
Talvez tu também tenhas sentido alguma coisa naquele instante. Talvez o frio das tuas mãos não fosse apenas frio, mas o reflexo de uma emoção que te surpreendeu. Ou talvez eu estivesse atribuindo ao momento uma importância que só existia dentro de mim. Afinal, o coração tem dessas coisas: transforma pequenos gestos em acontecimentos extraordinários, procura significados nos olhares e inventa perguntas para as quais nem sempre encontra respostas.
Mas há uma verdade que não posso negar: depois daquele cumprimento, fiquei pensando em ti.
Recordei o contato das tuas mãos, a brevidade do gesto e a sensação estranha de que alguma coisa havia ficado suspensa entre nós. Era como se o encontro não tivesse terminado completamente, como se uma parte dele continuasse acontecendo dentro de mim, repetindo silenciosamente aqueles poucos segundos.
E comecei a compreender que existem toques que não terminam quando as mãos se separam. Permanecem na memória, voltam inesperadamente e nos fazem reviver o instante com uma intensidade que não conseguimos controlar. São pequenos acontecimentos que, sem pedir licença, encontram morada em nossos pensamentos.
Talvez seja isso que torna o amor tão misterioso. Ele nem sempre chega anunciando sua presença. Às vezes, aproxima-se devagar, disfarçado de amizade, escondido num cumprimento, revelado num olhar ou percebido na delicadeza de um toque. E, quando finalmente nos damos conta, já estamos tentando decifrar aquilo que sentimos.
Desde então, uma pergunta insiste em me acompanhar: será que tu também sentiste algo diferente quando nossas mãos se tocaram? Será que, por um breve instante, experimentaste a mesma sensação de que aquele encontro guardava alguma coisa além do que os olhos podiam ver?
Não tenho respostas. Tenho apenas a lembrança daquele momento e a curiosidade de saber o que se passou dentro de ti.
Talvez nunca descubra. Talvez tudo não tenha passado de uma impressão minha, dessas que a imaginação alimenta quando o coração está disposto a acreditar no extraordinário. Mas gosto de pensar que, naquele instante, alguma coisa aconteceu entre nós, ainda que tenha sido pequena demais para receber um nome.
Porque há encontros que nos oferecem palavras, outros que nos deixam lembranças, e existem aqueles que nos entregam perguntas capazes de permanecer conosco por muito tempo.
E, se me perguntarem o que senti quando toquei tuas mãos, direi que não foi apenas o frio que percebi. Foi uma sensação delicada, indefinida, quase um pressentimento. Como se o tempo tivesse parado por um segundo para me lembrar de que a vida ainda pode nos surpreender.
Quem sabe o frio das tuas mãos não tenha sido apenas o frio de um instante, mas a maneira silenciosa que o teu coração encontrou de revelar uma emoção?
E quem sabe, também, aquele cumprimento aparentemente tão simples não tenha sido o começo de uma história que ainda não sabemos contar?
Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a Cadeira Nº 40, Patroneada por José Ribamar S. dos Reis.





