
Há certas cenas da política brasileira que, se não fossem tão reveladoras, seriam simplesmente engraçadas. A mais curiosa delas é assistir à mudança de figurino de quem, diante da iminência de uma derrota, parece descobrir, de repente, o valor das cores da bandeira nacional.
O partido que sempre carregou o vermelho como uma de suas principais marcas, diante do risco de perder o apoio popular, resolve aproximar sua imagem do verde, amarelo, azul e branco, as cores da bandeira brasileira, tão frequentemente evocadas como símbolos da democracia.
Ora, convenhamos: isso é um gesto de convicção ou um ato de desespero?
Quando a derrota se aproxima, parece que até as cores precisam ser repensadas. O vermelho, antes exibido com orgulho, cede espaço ao verde e amarelo. A bandeira nacional, que nunca pertenceu exclusivamente a ninguém, passa a ser cortejada como um recurso para conquistar eleitores e suavizar a imagem política.
É quase uma piada pronta! Será que basta trocar as cores para convencer o brasileiro de que também mudaram as ideias? Será que uma nova camisa consegue apagar uma história, transformar discursos ou esconder contradições?
A política, infelizmente, tem dessas coisas. Quando faltam argumentos convincentes, investe-se na aparência. Quando a popularidade ameaça desabar, procura-se uma nova embalagem. E, quando o eleitor começa a demonstrar cansaço, até os símbolos mais tradicionais da nação parecem ganhar uma utilidade eleitoral inesperada.
Mas há um detalhe que talvez os estrategistas esqueçam: o eleitor não é tão ingênuo quanto imaginam. Ele pode até se impressionar com uma fotografia, uma bandeira ou uma mudança de cores, mas, no momento de decidir, também observa os resultados, compara as promessas com as realizações e avalia a coerência entre o discurso e a prática.
O verde e amarelo não são propriedades da direita, assim como o vermelho não pertence exclusivamente à esquerda. A bandeira brasileira é patrimônio de todos os cidadãos. O problema não está em qualquer partido adotar suas cores, mas em transformar o patriotismo em estratégia de marketing, como se a identidade nacional pudesse ser utilizada conforme as necessidades eleitorais.
Patriotismo não se improvisa às vésperas de uma derrota. Democracia não se veste como fantasia. E convicção política não deveria mudar de cor conforme a conveniência.
O Brasil precisa de partidos que disputem ideias, apresentem propostas e respeitem a inteligência da população. Precisa de líderes que compreendam que a confiança pública não se recupera apenas com uma nova identidade visual, mas com atitudes, coerência e resultados.
Se a intenção é conquistar o eleitor pela mudança de cores, fica a pergunta: trata-se de uma evolução política sincera ou de uma tentativa desesperada de se aproximar de um símbolo que sempre pertenceu a todos os brasileiros?
Diante de uma derrota iminente, trocar o vermelho pelo verde e amarelo pode até parecer uma jogada engenhosa. Mas também pode transmitir a impressão de que, quando o poder está ameaçado, os princípios se tornam negociáveis.
E aqui encerro com uma ironia que dispensa maiores explicações:
Se até as cores mudam quando a derrota se aproxima, imagine o que não se muda quando o que está em jogo é o poder!
Deve ser desespero. Ou, para quem ainda acredita em certas encenações políticas, uma piada vestida de verde e amarelo.
Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a Cadeira Nº 40, Patroneada por José Ribamar S. dos Reis.




