Há uma pergunta que não me sai da cabeça: quem está realmente doente? Eu, que recebo o diagnóstico de diabetes tipo 2, sigo as prescrições médicas, faço exames periódicos, pago plano de saúde e compro medicamentos cada vez mais caros? Ou é um sistema que transforma pessoas em pacientes permanentes, consumidores compulsórios de remédios e reféns de protocolos que mudam mais rápido do que a própria ciência consegue explicar?
Recentemente, após uma consulta com a endocrinologista, fui à farmácia adquirir os medicamentos prescritos. A conta beirou os R$ 1.000,00. Isso sem considerar os medicamentos que já possuía em casa. Para um aposentado, trata-se de um valor significativo. Somem-se a isso os custos do plano de saúde e outras despesas médicas, e mais da metade da renda líquida desaparece antes mesmo de chegar ao final do mês.
Minha história com o diabetes começou de forma abrupta. Após uma consulta de rotina em que tudo parecia normal, senti-me mal e procurei atendimento de emergência. O resultado: glicemia elevadíssima e diagnóstico de diabetes tipo 2. Naquele período, os parâmetros de controle eram outros. Com o passar do tempo, os limites considerados seguros foram sendo reduzidos. O que antes era aceitável passou a ser preocupante. O que ontem era normal, hoje é doença; o que hoje é aceitável, amanhã talvez seja insuficiente.
Não se trata de negar a evolução da medicina nem a importância do diagnóstico precoce. Pelo contrário. A questão é outra: até que ponto a ampliação contínua de critérios diagnósticos transforma fatores de risco em doenças e amplia o universo de consumidores de medicamentos?
Os números oficiais demonstram a dimensão do problema. Segundo o Atlas da Federação Internacional de Diabetes (IDF), o Brasil possuía cerca de 16,6 milhões de adultos vivendo com diabetes em 2024, correspondendo a uma prevalência de 10,6% da população adulta. Além disso, aproximadamente 31,9% dos casos permanecem sem diagnóstico, o que representa mais de 5 milhões de brasileiros.
O diabetes tornou-se uma das maiores preocupações de saúde pública do país. Mas também movimenta um gigantesco mercado. Laboratórios disputam prescrições, oferecem programas de fidelidade, descontos especiais e benefícios para garantir que o paciente permaneça comprando seus produtos. Não raramente, o cidadão recebe mensagens, aplicativos e promoções semelhantes às de qualquer programa comercial de varejo.
Ao mesmo tempo, observa-se uma expansão crescente da oferta de medicamentos pelo Sistema Único de Saúde e pelo Programa Farmácia Popular. Atualmente, diversos medicamentos utilizados no tratamento do diabetes são distribuídos gratuitamente mediante apresentação de receita médica. O próprio governo envia notificações lembrando pacientes de retirarem seus medicamentos quando deixam de buscá-los.
O acesso gratuito é positivo e necessário. Mas a questão permanece: estamos tratando pessoas ou administrando mercados?
Outro aspecto inquietante é a constante mudança das recomendações. Um medicamento é prescrito durante meses. Depois descobre-se a necessidade de suplementar vitamina B12 porque aquele mesmo tratamento pode provocar deficiência nutricional. A pergunta inevitável surge: por que essa associação não foi feita desde o início? Por que esperar que o organismo apresente os efeitos da deficiência para corrigi-la?
O mesmo fenômeno ocorre com a alimentação. O pão de ontem torna-se o vilão de hoje. A manteiga deixa de ser recomendada. A carne vermelha entra na lista dos suspeitos habituais. A gordura é condenada. Depois, alguns especialistas afirmam que ela talvez não seja tão nociva assim. O consumidor comum fica perdido entre manchetes, pesquisas, interesses econômicos e orientações contraditórias.
Não é uma crítica à ciência. A ciência deve evoluir e revisar conceitos. O problema é quando essa evolução chega à população na forma de certezas absolutas que, alguns anos depois, são substituídas por novas certezas igualmente absolutas.
Enquanto isso, a indústria alimentícia apresenta ovos artificiais, carnes cultivadas em laboratório e alimentos ultraprocessados vendidos como alternativas mais saudáveis. Coincidentemente, os produtos tradicionais passam a ser vistos com crescente desconfiança. É impossível não questionar quem ganha com essas mudanças de hábitos e de consumo.
Ao final, resta uma reflexão mais ampla. O cidadão trabalha a vida inteira, contribui para os sistemas de saúde e previdência, paga impostos elevados, financia pesquisas, sustenta estruturas públicas e privadas e, quando envelhece, vê uma parte significativa de sua renda destinada à manutenção da própria sobrevivência.
Sou diabético. Tenho consciência disso. Mas, diante de tantas contradições, interesses econômicos e mudanças permanentes de critérios, volto à pergunta inicial:
Quem está doente? O paciente que luta para manter a saúde ou um sistema que parece precisar cada vez mais de pessoas permanentemente medicadas para continuar funcionando?
Talvez a resposta esteja menos nos exames laboratoriais e mais na forma como transformamos a saúde em mercadoria e o cidadão em consumidor cativo de tratamentos sem fim.
Leopoldo Gil Dulcio Vaz é professor de Educação Física e membro da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a cadeira 21, tendo como Patrono Manuel Fran Pacheco.




