Dentro da série de artigos em que comento minha vida, as ‘memórias de um professor aposentado’, dentro outros fatos, resgatam as influências das leituras em minha vida. Chegou a hora de A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, obra escritapor Friedrich Engels e publicada pela primeira vez em 1884. O livro tornou-se um clássico do pensamento social e político, influenciando gerações de pesquisadores, historiadores, sociólogos e estudiosos das relações humanas.
Friedrich Engels (1820-1895) foi um filósofo, sociólogo, economista e teórico político alemão. Conhecido por sua longa parceria intelectual com Karl Marx, participou da elaboração das bases do socialismo científico e do materialismo histórico. Além de coautor do Manifesto Comunista (1848), dedicou-se ao estudo das transformações econômicas e sociais provocadas pelo capitalismo.
Engels possuía amplo interesse pela história, antropologia e organização das sociedades humanas. Após a morte de Marx, assumiu a tarefa de organizar parte de seus escritos e aprofundar algumas das pesquisas iniciadas pelo amigo. Foi nesse contexto que escreveu A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado.
A obra procura explicar como surgiram e evoluíram três instituições fundamentais da vida social: a família, a propriedade privada e o Estado. Para desenvolver sua análise, Engels utilizou estudos do antropólogo norte-americano Lewis Henry Morgan, especialmente a obra Ancient Society, além de anotações deixadas por Karl Marx. [archive.org], [pt.wikipedia.org]
Uma das partes que mais me chamavam a atenção quando lia Engels era sua tentativa de mostrar que a família possui uma história. Para ele, as relações familiares não nasceram prontas nem permaneceram imutáveis ao longodos séculos. Ao contrário, modificaram-se à medida que os grupos humanos mudavam suas formas de produzir, trabalhar e acumular riquezas.
Engels descreve uma trajetória que partiria de formas coletivas e mais amplas de convivência, passando por diferentesestágios de organização familiar, até chegar à família monogâmica moderna. Em sua interpretação, a grande transformação ocorreu quando a propriedade privada passou a adquirir importância econômica crescente. Nesse momento, surgiu a necessidade de transmitir bens aos descendentes, fortalecendo a autoridade masculina dentro da família e consolidando o modelo patriarcal.
O livro também defende que o Estado não surgiu como uma instituição neutra, mas como resultado das divisões sociais e dos conflitos decorrentes da acumulação de riquezas. Na interpretação de Engels, o Estado teria sido criado para administrar e preservar determinadas relações de poder existentes nas sociedades de classes.
Mais de um século após sua publicação, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado permanece como uma obra de referência para quem deseja refletir sobre as origens e transformações da vida social, contribuindo para o debate sobre desigualdade, poder e organização das sociedades humanas.
Pois bem, e como me torneium ‘guerrilheiro’ terrível após essa leitura? Cursei o Ginásio no Colégio “Senhor Bom Jesus”, de irmãos franciscanos, em Curitiba-Paraná. Meu professor de história era o Jacy. Adorava, pensava em ser historiador… Na etapa seguinte dos estudos, fui fazer oCurso Técnico de Contabilidade, no Colégio Novo Ateneu, também particular… o curso era noturno, e eu trabalhava durante o dia e, nos finais de semana, pelo menos duas vezes por mês, viajava para o interior, levando correspondências para serem assinadas pelos prefeitos de algumas cidades, em que meu pai era contador.
Já no segundo ano de contabilidade, fui chamado ao “Bom Jesus”. Estava faltando uma disciplina em meu currículo – OSPB! Que fora dada como conteúdo dentro de História, no 8º ano. Deveria cursá-la. Para regularizar minha formação. Compareci ao Colégio, e em reunião com a direção, o professor e um representante da Secretaria de Educação foi-me informado da necessidade. Disse que havia dado a matéria, dentro de História, o que foi confirmado pelo Prof. Jacy, mas que precisava de registro. Disse que a havia cursado, no 1º ano de Contabilidade, no Novo Ateneu, e os conteúdos eram semelhantes… O representante da Secretaria de Educação era um primo de meu pai, Tininho… A alternativa, era realizar uma prova. O que concordei. Passaram-me o conteúdo e disse que não havia necessidade dos 30 dias para estudá-lo. Tinha condições de fazer a prova – uma redação – naquele momento. Fiz… o tema sorteado foi “A Família”…
Pensem numa confusão que deu em minha vida, essa decisão. Comecei com “Segundo Engels, a Família…” e segui, havia lido o livro na semana anterior. Ainda estava com as anotações na cabeça…
Uma semana depois, sou chamado ao “Bom Jesus” e, no gabinete do Diretor, estavam o representante da Secretaria de Educação – o meu primo -, e um agente da Polícia Federal, de nome Napoleão. Queria uma explicação do que havia escrito, especialmente por fazer referencia a um livro proibido…
Queriam saber de onde tirara aquelas ideias ‘comunistas’…Jacy disse que não fora dele. Só se fora o professor no “Ateneu”. Nova reunião, desta vez no “Ateneu”, com a direção da escola e o professor de OSPB. Rozala Garzuze, presidente da Sociedade Teosofica, que eu costumava frequentar, para ouvir palestras, junto com meu pai. (A Sociedade Teosófica é uma organização internacional fundada em 1875, em Nova York, por Helena Petrovna Blavatsky, Henry Steel Olcott e William Quan Judge. Seu objetivo principal é promover a fraternidade universal e o estudo comparado das religiões, filosofias e ciências. A palavra teosofia vem do grego theos (Deus) e sophia (sabedoria), significando “sabedoria divina”. A tradição teosófica sustenta que existe uma verdade fundamental comum às diversas religiões e que o ser humano pode aproximar-se dela por meio do autoconhecimento, da investigação espiritual e do serviço à humanidade. Os três objetivos clássicos da Sociedade Teosófica são: Formar um núcleo da fraternidade universal da humanidade, sem distinções de raça, sexo, crença ou condição social. Incentivar o estudo comparado da religião, da filosofia e da ciência. Investigar as leis da natureza ainda não explicadas e os potenciais latentes do ser humano). Nada a ver com marxismo… Disse, então, que lera o livro em minha casa, dentre as minhas leituras, assim como outras obras, de Marx, de Rosa de Luxemburgo… tinha-os em nossa biblioteca. Napoleão estava presente nessa reunião, também. Ao que o Prof. Rozala disse ser eu menor de idade e não poderia ser ouvido sem a presença do pai, um responsável. Mandaram chamar meu pai, que além de secretário da Faculdade de Direito de Curitiba, era acadêmico na mesma faculdade, que funcionava no prédio do ‘Novo Ateneu”. Lá veio o Dr. Loir, logo perguntando o que aprontara, dessa vez… Napoleão ficou surpreso ao ver meu pai,pois fora ele que o prendera quando da revolução de 1964… estava explicado, pensou… Rozala viria a ser meu professor, depois, na Escola de Educação Física, de Psicologia Educacional, e na Faculdade de Direito, de Psicologia do Direito. Enfim, fui aprovadoe tive minha ficha regularizada. Engraçado que, quando cursava Direito, esse mesmo Napoleão era colega de turma…
Abandonei Direito, conclui Educação Física – que fazia junto – e, ao terminar, fui convidado para vir a Imperatriz, participar da Equipe 49 doProjeto Rondon, no Campus Avançado na Universidade Federal do Paraná… Convidado, retornei ao Paraná, para ver minha documentação e vir para Imperatriz. Para minha surpresa, recebi a visita de Napoleão, a quem não via desde que abandonara o curso de Direito, no segundo ano. “O que você vai fazer em Imperatriz”, foi a pergunta… respondi que participara de uma equipe e fora convidado a retornar… “sei”, respondeu… estamos de olho… tem a ver alguma coisa sobre a guerrilha do Araguaia?”
Foi a primeira vez que ouvira isso. Não, vou trabalhar com Educação Física e Esportes… Claro que fiquei intrigado… Já em Imperatriz, dava aulas de Atletismo no 50º BIS, cujo comandante era um tent.coronel carioca, e havia um R2 gaúcho, o Tchê. Sempre era chamado ao quartel, para dar treinamento em voleibol e basquetebol, para os oficiais; o interventor de Imperatriz era o Cel. Bebeto – Carlos Alberto Barateiro da Costa, um dos maiores atletas de Basquetebol que o Maranhão já teve, e que participava desses treinamentos e jogos. Quando houve mudança de comando do 50º BIS, estava dando aulas lá, para meus alunos do Santa Teresinha, fui chamado numa sala – 2ª. Sessão – e lá estavam o Coronel, Tchê e… Napoleão!!! Um susto… O Coronel me explicou que estava indo embora, reformado e que o Tchê havia se incorporado ao Exércio, agora Tenente e estava voltando para o Rio Grande do Sul… “Voce conhece o Dr. Napoleão…” Mostraram-me umas folhas de papel, e “esse o relatório de apresentei ao DOPS sobre você, que não representa nenhum risco… é um professor dedicado e competente…” dito isso, rasgou a ficha… e o Napo disse: agora está livre… siga tua vida. Boa sorte…
Quanto á Guerrilha do Araguaia, foi um movimento de luta armada organizado pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) durante a ditadura militar brasileira. Desenvolveu-se na região do rio Araguaia, na área de fronteira entre os atuais estados do Pará, Tocantins e Maranhão. Seus organizadores acreditavam que uma revolução social poderia começar no campo, inspirada em experiências como a Revolução Chinesa e a Revolução Cubana. A preparação da guerrilha começou na segunda metade da década de 1960. Muitos militantes passaram a viver discretamente na região, trabalhando como agricultores, comerciantes, professores ou profissionais da saúde, enquanto construíam vínculos com a população local. O objetivo era criar uma base de apoio camponesa para enfrentar o regime militar.
Os confrontos armados ocorreram principalmente entre 1972 e 1974. As Forças Armadas realizaram sucessivas operações militares para eliminar a guerrilha. Ao final dos combates, o movimento foi derrotado. Grande parte dos guerrilheiros morreu durante as operações ou desapareceu, e muitos de seus corpos jamais foram localizados.
E lá estava eu, indo para Imperatriz… mas a guerrilha já havia sido debelada… fui para lá em 1976… Ouvi diversas vezes uma curiosa narrativa repetida por moradores mais antigos: a de que Che Guevara teria passado pela cidade em algum momento de suas andanças pela América do Sul. Verdadeira ou não, a história sobrevivia nas rodas de conversa, nos relatos familiares e na memória popular. Com o passar dos anos, percebi que aquela lembrança dizia muito sobre o imaginário político da região e sobre a forma como os grandes acontecimentos da América Latina encontravameco nas margens do Tocantins. Mais do que comprovar um fato, a narrativa revelava como a memória coletiva preserva personagens e episódios que o tempo se recusa a apagar.
Leopoldo Gil Dulcio Vaz é professor de Educação Física e membro da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a cadeira 21, tendo como Patrono Manuel Fran Pacheco.




