O mês da pessoa idosa e sua inclusão, por Osmar Gomes dos Santos

Ao participar de um seminário promovido pela comissão de atenção à pessoa idosa do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão, neste mês de outubro, fiquei a refletir sobre várias manifestações da colega Juíza, do Promotor de Justiça e do Defensor Público que atuam na Vara do Idoso, assim como as palavras magníficas do coordenador, Desembargador José Eulálio Figueiredo de Almeida, o que me motivou a escrever sobre a pessoa idosa, sua memória , sua inclusão e o diálogo do passado com o presente e com o futuro.
Me veio então à mente o dicionário que tenho dentro de casa , a minha mãe Maria Gomes, de 98 anos, dialogando com a sua neta, a minha filha Bianca, quando tinha apenas 15 anos de idade.

Vovó Maria, como é carinhosamente chamada pelos netos, observava a vida passar pela janela do quarto de uma casa simples na periferia de São Luís, com a serenidade de quem já viu o mundo mudar de tom muitas vezes. Com as mãos calejadas por décadas de trabalho na roça e na quebra de côco babaçu, no povoado Enseada Grande, no Município de Cajari-Ma, segurava uma xícara com café meio morno. Lá fora, o rítimo parecia o de um filme acelerado com passos apressados, buzinas de veículos por motoristas impacientes e olhos cravados em telas luminosas.

Para a sociedade que corria contra o relógio, o tempo era opressor, mas para vovó Maria, era apenas um velho amigo. Mas, às vezes, a sensação de invisibilidade doía mais do que as dores reumáticas nas manhãs frias. Na mesa simples do café, as conversas da família muitas vezes passavam por cima dela, como se sua presença fosse apenas um adorno de afetos antigos, mas sem utilidade no presente pela valorização da conectividade.

Tudo mudou na tarde em que a netinha de apenas 15 anos entrou no quarto visivelmente angustiada e comentou: Vovó preciso fazer um trabalho de história sobre como era o bairro há cinquenta anos, mas não acho quase nada na internet! As páginas são confusas e os sites antigos já não estão mais no ar…
A vovó Maria sorriu baixinho, colocou a xícara sobre um tamborete, ajeitou os óculos na ponta do nariz e disse-lhe: Minha neta, o que a internet chama de “dados”, eu chamo de vida. Senta aqui perto de mim.

Naquela tarde, aquele quarto da vovó Maria deixou de ser um canto esquecido da casa e transformou-se em um portal do tempo. Ela não apenas contou datas; reviveu os cheiros da antiga padaria da esquina, o som do bonde nas ruas estreitas de São Luís, o medo e a esperança de tempos políticos difíceis, e o surgimento das primeiras luzes elétricas na rua. Bianca, sua neta, ouvia fascinada, percebendo que a avó guardava um acervo que nenhum algoritmo conseguiria mapear: a profundidade da experiência humana.

O trabalho de Bianca foi um sucesso, mas a verdadeira transformação aconteceu dentro de casa. A neta percebeu que incluir a avó não era um ato de caridade ou mera cortesia; era uma necessidade de reconexão. Bianca ensinou a avó a usar o aplicativo de mensagens para enviar fotos do que ela mais gostava que eram a família e flores, e a avó ensinou a neta a ter paciência para ouvir o silêncio e a cultivar o afeto sem pressa.

A inclusão da pessoa idosa não se dá apenas garantindo assentos preferenciais ou rampas de acesso — embora estes sejam fundamentais. A verdadeira inclusão floresce quando a sociedade reconhece que envelhecer não significa perder o valor, mas sim acumular perspectiva. É abrir espaço à mesa para que o passado dialogue com o presente e mais ainda com o futuro, garantindo que o tempo, em vez de afastar as gerações, seja a ponte que as une.

*Osmar Gomes dos Santos é juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA) e presidente da Academia Ludovicense de Letras. É membro da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da Academia Literária do Maranhão e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.