Pagar para Ir à Escola? O Brasil Precisa de Aprendizagem, Não de Estatísticas, por Leopoldo Vaz

Quando um país começa a remunerar estudantes para que frequentem a escola, a primeira pergunta não deveria ser quanto custa o programa. A pergunta correta é: como chegamos a esse ponto?

A criação de incentivos financeiros para combater a evasão escolar nasce de uma preocupação legítima. Milhares de jovens abandonam os estudos porque precisam trabalhar, ajudar a sustentar a família ou enfrentam condições de extrema vulnerabilidade. Ignorar essa realidade seria irresponsável.

Mas existe uma diferença fundamental entre apoiar famílias pobres e acreditar que dinheiro resolverá o fracasso educacional brasileiro.

Os números mostram que o problema é muito mais profundo.

De acordo com o Censo Escolar 2023, o ensino médio registrou taxa de abandono de 5,9% e reprovação de 3,9%, os maiores índices de toda a educação básica brasileira. Esses dados são preocupantes e justificam políticas voltadas à permanência dos estudantes.

Mas a evasão é apenas parte da crise.

A verdadeira dimensão do problema aparece quando se analisam os resultados de aprendizagem.

O Saeb 2023 revelou que apenas 5,2% dos estudantes da rede pública que concluíram o ensino médio atingiram o nível considerado adequado em Matemática. Em Língua Portuguesa, o percentual alcançou apenas 32,4%.

Traduzindo: mesmo entre aqueles que permaneceram na escola até o final da educação básica, a esmagadora maioria não aprendeu o que deveria.

A situação começa muito antes do ensino médio. Em Matemática, o percentual de aprendizagem adequada cai de 43,5% no 5º ano do ensino fundamental para 16,5% no 9º ano e despenca para 5,2% no final da educação básica.

Quanto mais tempo o aluno permanece no sistema, menor é a proporção dos que dominam conhecimentos essenciais.

Isso deveria provocar uma reflexão nacional.

Estamos discutindo a melhor forma de levar estudantes para a escola quando o verdadeiro escândalo é aquilo que acontece depois que eles entram nela.

A tragédia educacional brasileira não é apenas a evasão. É a aprovação sem aprendizagem.

É o aluno que frequenta aulas durante mais de dez anos e sai sem compreender um texto complexo. É o jovem que recebe um diploma, mas não consegue resolver problemas matemáticos básicos. É a certificação da ignorância.

Os dados internacionais reforçam esse diagnóstico.

No Pisa 2022, principal avaliação educacional do mundo, o Brasil permaneceu muito abaixo da média dos países da OCDE em Matemática, Leitura e Ciências. O país ocupou apenas a 65ª posição em Matemática entre os 81 participantes.

Mais alarmante ainda: cerca de 73% dos estudantes brasileiros de 15 anos ficaram abaixo do nível básico de proficiência em Matemática, percentual mais que o dobro da média observada entre os países participantes.

Isso significa que uma enorme parcela dos nossos jovens tem dificuldades para aplicar conceitos matemáticos elementares em situações do cotidiano.

Diante desse cenário, o debate sobre pagar ou não para frequentar a escola parece insuficiente.

Dinheiro pode ajudar a manter o estudante matriculado. Não pode fazê-lo aprender.

Não substitui professores qualificados.

Não corrige currículos defasados.

Não melhora a gestão escolar.

Não cria disciplina de estudo.

Não produz excelência acadêmica.

Não desperta curiosidade intelectual.

Nenhuma nação desenvolvida alcançou altos níveis de aprendizagem simplesmente pagando para que os alunos comparecessem às aulas.

Os países que avançaram investiram pesadamente na qualidade do ensino, na valorização dos professores, na cultura do mérito acadêmico e em sistemas rigorosos de acompanhamento da aprendizagem.

O Brasil parece caminhar na direção oposta. Celebramos matrículas, frequência e certificados enquanto ignoramos o colapso dos indicadores de conhecimento.

É evidente que programas de apoio financeiro têm função social relevante. Um jovem que abandona a escola por falta de condições econômicas representa uma derrota para toda a sociedade. Se um benefício ajuda a evitar esse desfecho, ele pode ser necessário.

Mas transformar a permanência em objetivo final significa reduzir a educação a uma questão burocrática.

A pergunta decisiva não é quantos estudantes permanecem na escola.

A pergunta decisiva é quantos saem dela preparados para a vida.

Quando apenas 5,2% dos concluintes da rede pública demonstram aprendizagem adequada em Matemática, o país deveria estar discutindo qualidade, não apenas frequência.

Presença é importante.

Aprendizagem é indispensável.

A frequência pode melhorar indicadores governamentais. O conhecimento transforma destinos.

E enquanto confundirmos uma coisa com a outra, continuaremos pagando pela presença dos alunos e recebendo, em troca, a conta cada vez mais alta do fracasso educacional brasileiro.

Leopoldo Gil Dulcio Vaz é professor de Educação Física e membro da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a cadeira 21, tendo como Patrono Manuel Fran Pacheco.