Roberto Franklin escreve sobre a Lenda da Serpente e eu dou o meu ‘pitaco’, melhor, depoimento, em complementação. https://academialudovicensedeletras.com/a-serpente-da-lagoa/
Entre as inúmeras lendas que habitam o imaginário maranhense – A Ana Jansen e sua Carruagem Fantasma, A Manguda, O Rei Dom Sebastião e a Encantaria dos Lençóis, A Mãe-d’Água Maranhense, A Cobra Grande ou Boiúna, O Navio Fantasma de São Luís, A Praia de Olho d’Água e o Encantamento das Fontes, Os Encantados da Baixada Maranhense, O Bicho d’Água da Baixada e a que vamos a seguir destrinchar – conforme lembranã do Roberto – A Serpente de São Luís, , a da grande serpente adormecida sob os alicerces de São Luís ocupa lugar singular.
Segundo a tradição popular, uma gigantesca cobra repousa nos subterrâneos da cidade, com a cabeça localizada em um ponto e a cauda em outro. Diz a crença que, quando a serpente finalmente encontrar a própria cauda, São Luís será tragada e desaparecerá. A narrativa adquiriu nova força simbólica ao ser associada, em versões contemporâneas, à Serpente da Lagoa da Jansen, espaço urbano cercado por histórias misteriosas e fenômenos lendários.
Mais do que um simples relato folclórico, essa lenda dialoga com um dos símbolos mais antigos da humanidade: a serpente. Presente nas mitologias de diferentes civilizações, ela representa simultaneamente criação e destruição, sabedoria e perigo, vida e morte. Sua permanência em culturas distantes revela uma profunda dimensão arquetípica que ajuda a compreender o significado da serpente na imaginação social de São Luís.
A Serpente na Mitologia Universal
A serpente é um dos símbolos mais ambíguos da história das religiões e mitologias. Desde tempos remotos, os seres humanos atribuem a ela significados contraditórios e complementares.
No Egito Antigo, a cobra estava associada ao poder divino. A serpente Uraeus adornava as coroas dos faraós como símbolo da autoridade sagrada. Ao mesmo tempo, a serpente Apófis representava as forças do caos que ameaçavam a ordem cósmica.
Na tradição judaico-cristã, a serpente do Jardim do Éden tornou-se símbolo da tentação, do conhecimento proibido e da queda humana. Entretanto, a mesma tradição apresenta a serpente de bronze erguida por Moisés como instrumento de cura e salvação, revelando sua natureza simbólica dual.
Na Grécia Antiga, Asclépio, deus da medicina, carregava um bastão envolto por uma serpente, imagem que permanece como símbolo da medicina até os dias atuais. Já o Ouroboros, a serpente que morde a própria cauda, simbolizava a eternidade, o ciclo infinito da vida e a renovação do universo.
Nas culturas indígenas americanas, muitas vezes a serpente está ligada aos rios, às águas profundas e às forças criadoras da natureza. Na Amazônia, a Cobra Grande ou Boiúna habita os rios e pode transformar paisagens inteiras, representando o poder misterioso das águas.
Essas representações revelam uma constante: a serpente é sempre uma figura liminar, situada entre mundos opostos, conectando vida e morte, superfície e profundidade, humano e sobrenatural.
O Arquétipo da Serpente
Sob uma perspectiva crítica e simbólica, a serpente corresponde ao que Carl Gustav Jung chamou de arquétipo. Ela emerge espontaneamente em diferentes culturas porque representa conteúdos profundos do inconsciente coletivo.
Seu movimento sinuoso, sua capacidade de trocar de pele e sua proximidade com o solo fizeram da serpente uma imagem associada à transformação. Ela morre simbolicamente para renascer, renovada. Por isso tornou-se metáfora dos ciclos históricos, da continuidade da vida e da inevitabilidade da mudança.
Ao mesmo tempo, por viver em cavernas, fendas e lugares ocultos, a serpente simboliza forças subterrâneas da psique e da sociedade. Ela representa aquilo que está oculto, mas permanece vivo sob a superfície.
A Serpente e a Fundação Mítica de São Luís
Em São Luís, a serpente assume características particularmente interessantes. A cidade, fundada sobre uma ilha cercada por águas e marcada pelo encontro de culturas indígenas, africanas e europeias, desenvolveu uma rica tradição de narrativas fantásticas.
A lenda da serpente subterrânea surgiu associada à antiga topografia da cidade e aos seus extensos sistemas de galerias, túneis e alicerces coloniais. O imaginário popular construiu a imagem de uma cobra gigantesca adormecida sob o solo urbano, transformando a própria cidade em um organismo vivo.
Sob uma leitura crítica, a serpente simboliza a fragilidade da existência humana diante do tempo. São Luís, com seu patrimônio histórico secular, é constantemente confrontada pelo desgaste de suas construções, pelas transformações urbanas e pelas mudanças sociais. A cobra adormecida torna-se, assim, uma metáfora da instabilidade que existe sob toda aparente solidez.
A crença de que a cidade será destruída quando a serpente encontrar sua própria cauda remete diretamente ao símbolo do Ouroboros. Nesse sentido, a narrativa maranhense dialoga involuntariamente com uma imagem universal do eterno retorno: o fim coincide com o recomeço, a destruição contém em si mesma a possibilidade de renovação.
A Serpente da Lagoa da Jansen
A Lagoa da Jansen, um dos espaços urbanos mais conhecidos de São Luís, tornou-se também território fértil para narrativas lendárias. Em algumas versões populares, a serpente subterrânea teria ligações com a lagoa, considerada um local de energias misteriosas e acontecimentos extraordinários.
A lagoa, por sua própria natureza simbólica, representa profundidade, espelho e ocultamento. As águas paradas frequentemente aparecem na literatura e no folclore como portais para o desconhecido. Associar uma serpente à Lagoa da Jansen significa conectar dois símbolos ancestrais: a água e o réptil.
Nessa perspectiva, a serpente da lagoa atua como guardiã do invisível. Ela habita o limite entre a cidade moderna e os antigos mitos. Enquanto os prédios e avenidas representam o progresso urbano, a serpente recorda que subsistem forças simbólicas mais antigas que resistem à racionalidade contemporânea.
Interpretação Literária
Do ponto de vista literário, a serpente de São Luís pode ser interpretada como uma alegoria da própria memória coletiva.
Ela permanece escondida, mas nunca desaparece completamente. Surge em conversas populares, em narrativas orais e em textos sobre o folclore maranhense. Sua persistência demonstra a necessidade humana de transformar a cidade em um espaço encantado, onde o cotidiano convive com o extraordinário.
A lenda também expressa uma tensão entre passado e futuro. A serpente habita o subsolo, lugar que simboliza a história acumulada. Contudo, seu despertar pertence ao futuro, funcionando como uma profecia latente. Ela conecta, portanto, diferentes temporalidades, tornando-se guardiã da memória urbana.
Além disso, a figura monstruosa da serpente permite à população representar medos coletivos difíceis de nomear: o colapso da cidade, a perda do patrimônio histórico, as transformações sociais e a própria fragilidade da civilização.
Conclusão
A lenda da serpente de São Luís e sua associação à Lagoa da Jansen revelam muito mais que uma simples narrativa folclórica. Elas constituem uma sofisticada construção simbólica que dialoga com tradições mitológicas presentes em diversas culturas da humanidade.
Como o Ouroboros grego, a Cobra Grande amazônica ou as serpentes sagradas do Egito, a serpente ludovicense encarna forças de transformação, renovação e destruição. Em sua dimensão crítica e literária, ela representa a memória subterrânea da cidade, os ciclos da história e a permanente tensão entre permanência e mudança.
Assim, a serpente não ameaça apenas destruir São Luís; ela simboliza a verdade universal de que toda cidade, toda cultura e toda civilização carregam em seu interior as forças capazes de transformá-las. A lenda permanece viva porque fala, simultaneamente, da cidade real e dos mistérios profundos da condição humana.
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Referências específicas sobre a Lenda da Serpente de São Luís
A lenda da serpente subterrânea de São Luís é predominantemente transmitida pela tradição oral e aparece em diversas coletâneas do folclore maranhense. Uma das descrições mais citadas encontra-se em:
CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Global, 2002.
NUNES, Izaurina de Azevedo. Folclore maranhense. São Luís: SIOGE, 1982.
MOTA, Carlos de Lima. Lendas e tradições do Maranhão. São Luís: EDUFMA, 1995.
Leopoldo Gil Dulcio Vaz é professor de Educação Física e membro da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a cadeira 21, tendo como Patrono Manuel Fran Pacheco.





