O Brasil chega a 2027 como uma das nações mais ricas do planeta em recursos naturais, produção agrícola, geração de energia renovável e potencial econômico. Ainda assim, milhões de brasileiros convivem com uma realidade que parece incompatível com essa abundância: combustível caro, alimentos caros, energia cara, impostos elevados e serviços públicos frequentemente abaixo das expectativas.
A pergunta central deste artigo é simples:
Quem está sendo beneficiado pelo modelo econômico brasileiro?
Porque certamente não parece ser o cidadão comum.
O Estado que arrecada como país rico e entrega como país pobre
Em 2025, a carga tributária brasileira alcançou 32,4% do PIB, o maior nível da série histórica iniciada em 2010, segundo o Tesouro Nacional. Em outras palavras, quase um terço de toda a riqueza produzida pelos brasileiros foi transferida para os cofres públicos.
O mais grave não é arrecadar.
O problema é arrecadar muito e devolver pouco.
Apesar da arrecadação recorde:
a infraestrutura continua deficiente;
a segurança pública permanece entre as principais preocupações da população;
o sistema de saúde sofre com filas e escassez;
a educação básica continua distante dos melhores padrões internacionais.
O contribuinte brasileiro paga impostos comparáveis aos de várias economias desenvolvidas, mas recebe serviços frequentemente incompatíveis com esse esforço financeiro.
A pergunta é inevitável:
Para onde está indo tanto dinheiro?
Combustíveis: por que o cidadão não pode escolher?
O Brasil avançou para misturas cada vez maiores de etanol na gasolina.
A legislação atual permite percentuais de até 35% de etanol anidro, dentro da política do chamado “Combustível do Futuro”. O governo argumenta que a medida reduz emissões e diminui a dependência de derivados de petróleo.
Mas existe uma questão que nunca é respondida adequadamente:
Por que o consumidor não pode optar pela gasolina sem essa mistura?
O próprio setor automotivo reconhece que o etanol possui menor densidade energética.
Estudos citados por especialistas mostram que um litro de etanol fornece cerca de 70% da energia contida em um litro de gasolina. Isso tende a aumentar o consumo dos veículos à medida que cresce sua participação na mistura.
Se a mistura é realmente melhor para todos, por que a escolha não é deixada ao mercado e ao consumidor?
Energia solar: o cidadão investe e depois é taxado
Milhões de brasileiros investiram recursos próprios em sistemas fotovoltaicos.
Não receberam subsídios integrais.
Não receberam equipamentos gratuitos.
Assumiram financiamentos, pagaram juros, instalação, manutenção e impostos.
Mesmo assim, a partir do marco legal da geração distribuída, passou a existir cobrança gradual pelo uso da rede elétrica para a compensação da energia injetada pelos geradores residenciais.
A justificativa técnica é conhecida:
A rede precisa ser remunerada.
Mas a população faz outra pergunta:
Por que quem investe para reduzir a demanda sobre o sistema e produz energia limpa é tratado quase como um problema regulatório?
Soja: produzimos riqueza, exportamos riqueza
O Brasil tornou-se o maior produtor mundial de soja.
A produção atingiu aproximadamente 154 milhões de toneladas na safra 2022/2023.
Entretanto, cerca de dois terços dessa produção são exportados. Em determinados anos, a China absorve aproximadamente 70% a 80% das exportações brasileiras.
Isso gera uma das maiores distorções da economia brasileira.
Exportamos o grão.
Importamos produtos industrializados.
Exportamos matéria-prima.
Importamos valor agregado.
Enquanto isso, o consumidor brasileiro compra óleo, proteína animal, alimentos processados e inúmeros derivados sujeitos às oscilações internacionais do dólar e das commodities.
A riqueza sai dos portos.
A inflação fica nos supermercados.
O paradoxo alimentar brasileiro
O Brasil está entre os maiores produtores mundiais de:
soja;
café;
açúcar;
milho;
carne bovina;
carne de frango.
Mesmo assim, o preço dos alimentos aparece sistematicamente entre as maiores preocupações da população.
Quando uma nação produz abundância, mas enfrenta carestia, alguma coisa está errada.
Segundo dados do próprio Ministério da Agricultura, cerca de 65% da soja produzida no país é exportada.
A lógica é conhecida:
Quando o dólar sobe, exportar torna-se mais lucrativo.
Quando exportar torna-se mais lucrativo, aumenta o interesse pela venda externa.
Quando a oferta doméstica diminui, os preços internos sobem.
No fim da cadeia, o trabalhador brasileiro disputa sua comida com o mercado internacional.
O café: orgulho nacional ou produto de exportação?
O Brasil continua liderando o mercado mundial de café.
Em 2025, as exportações ultrapassaram 58 milhões de sacas. O consumo interno ficou em aproximadamente 21 milhões de sacas.
Embora não seja correto afirmar que todo o café de qualidade é exportado, existe um fato inegável:
Os cafés especiais mais valorizados possuem forte destino internacional porque alcançam preços muito superiores nos mercados externos.
Enquanto isso, grande parte da população continua consumindo produtos de padrão inferior.
O país líder mundial do café muitas vezes oferece ao próprio povo aquilo que sobra da cadeia de maior valor.
A contradição dos impostos sobre alimentos
Durante décadas, o sistema tributário brasileiro tributou pesadamente itens essenciais da alimentação.
Tão grave era a situação que a própria Reforma Tributária reconheceu o problema.
A nova legislação criou uma cesta básica nacional com alíquota zero para diversos produtos fundamentais, incluindo:
arroz;
feijão;
leite;
ovos;
café;
frutas;
verduras;
legumes;
pão;
farinha;
açúcar.
A pergunta que surge é incômoda:
Se esses produtos agora merecem imposto zero, por que foram tributados durante décadas?
O reconhecimento implícito é evidente:
o sistema tributava excessivamente aquilo que o pobre mais consome.
Benefícios, subsídios e a conta paga por poucos
Outra discussão que os governantes de 2027 precisarão enfrentar diz respeito ao crescimento contínuo dos gastos públicos.
O Brasil precisa manter uma rede de proteção social para idosos, pessoas com deficiência, desempregados e cidadãos em situação de vulnerabilidade.
Isso não está em debate.
O que precisa ser debatido é a eficiência.
O objetivo de uma política social deve ser a emancipação.
Não a dependência permanente.
Da mesma forma, subsídios econômicos precisam ser constantemente avaliados.
Não faz sentido o cidadão financiar benefícios para setores específicos enquanto enfrenta juros elevados, impostos recordes e perda de poder de compra.
Todo incentivo público deveria responder a uma pergunta simples:
Qual benefício real retorna para a sociedade que paga essa conta?
A pergunta que definirá o Brasil de 2027
O novo governo precisará escolher.
Continuará administrando o país para grupos organizados e setores de pressão?
Ou governará para os cidadãos que produzem, trabalham, empreendem e sustentam a arrecadação nacional?
Porque o sentimento crescente nas ruas é o de que o Brasil possui:
uma agricultura voltada para exportação;
um sistema tributário voltado para arrecadação;
uma burocracia voltada para si mesma;
e uma população cada vez mais pressionada pelo custo de vida.
O Brasil não precisa de mais discursos.
Precisa responder perguntas.
Por que produzimos tanto e pagamos tão caro?
Por que arrecadamos tanto e recebemos tão pouco?
Por que o país é tão rico e o cidadão se sente cada vez mais pobre?
Os governantes que assumirem em 2027 terão diante de si uma oportunidade histórica.
Ou colocarão finalmente o cidadão no centro das decisões nacionais, ou continuarão administrando uma República onde os privilégios são protegidos e a conta é enviada, todos os meses, para quem trabalha.
A história mostrará qual caminho foi escolhido.
Leopoldo Gil Dulcio Vaz é professor de Educação Física e membro da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a cadeira 21, tendo como Patrono Manuel Fran Pacheco.




