Em 2027, os novos governantes receberão um país rico, mas com uma população cada vez mais cansada de sustentar privilégios. Um país que lidera a produção de alimentos, energia renovável e commodities agrícolas, mas onde milhões de brasileiros sentem dificuldade para abastecer o carro, pagar a conta de luz e fazer compras no supermercado.
A sensação crescente é de que o Brasil foi organizado para atender setores econômicos específicos, enquanto o consumidor, o trabalhador e o contribuinte ficam sempre em último lugar.
As perguntas que seguem não são ataques a setores produtivos. São questionamentos legítimos que deveriam nortear qualquer debate sério sobre o futuro nacional.
Combustíveis: por que o cidadão não pode escolher?
A Lei do Combustível do Futuro autorizou a ampliação do etanol anidro na gasolina para até 35%. Atualmente, o país já adota misturas superiores às praticadas na maior parte do mundo. O governo argumenta que a medida reduz emissões, fortalece a produção nacional e diminui a dependência de gasolina importada. O Ministério de Minas e Energia afirma que testes técnicos concluíram pela viabilidade da mistura E30 e da possibilidade de avanços futuros até E35.
No entanto, existe uma questão elementar:
Por que o consumidor não pode escolher?
Especialistas da área automotiva lembram que o etanol possui menor poder energético por litro. Alguns estudos apontam que o combustível derivado da cana entrega aproximadamente 70% da energia da gasolina pura, o que pode resultar em aumento de consumo quilométrico.
Além disso, entidades ligadas ao setor automotivo alertam para possíveis impactos sobre veículos mais antigos e importados, especialmente diante da hipótese futura de adoção do E35.
O debate que os políticos precisam enfrentar não é apenas técnico. Ele é democrático:
Por que a decisão sobre o conteúdo do tanque pertence ao governo e não ao proprietário do veículo?
Energia solar: o cidadão investe, gera energia e ainda paga
Milhares de brasileiros investiram recursos próprios em painéis solares. Não receberam o equipamento gratuitamente. Financiaram projetos, pagaram juros, impostos e assumiram riscos.
Mesmo assim, a Lei 14.300 instituiu a cobrança gradual pelo uso da rede elétrica para compensação da energia excedente gerada pelos sistemas solares conectados à rede.
A justificativa é que a infraestrutura elétrica precisa ser remunerada.
Mas o cidadão pergunta:
Se ele produz energia limpa, reduz a necessidade de investimentos públicos em geração e ainda entrega excedentes para o sistema, por que continua sendo tratado apenas como consumidor?
A energia solar continua economicamente viável, segundo o próprio setor, mas a percepção popular permanece: quanto mais independente o cidadão tenta ser, mais taxas surgem pelo caminho.
Soja: o Brasil produz riqueza, mas importa valor agregado
O Brasil é o maior produtor mundial de soja. A produção na safra 2022/2023 alcançou cerca de 154 milhões de toneladas, segundo o Ministério da Agricultura.
Mas aqui está o paradoxo:
Cerca de dois terços da soja produzida no país são exportados, enquanto apenas aproximadamente um terço permanece no mercado interno. A China compra algo próximo de 70% da soja exportada pelo Brasil e, em alguns anos, essa participação aproxima-se de 80%.
A consequência é conhecida.
Exportamos grãos. Importamos produtos industrializados.
Exportamos matéria-prima. Compramos valor agregado.
Exportamos em dólares. Consumimos em reais.
O resultado aparece no supermercado.
Não há problema em exportar. O problema é continuar exportando riqueza bruta enquanto a industrialização nacional permanece insuficiente.
Uma nação verdadeiramente desenvolvida transforma recursos naturais em produtos de alto valor agregado antes de colocá-los no mercado mundial.
Alimentos: por que produzir tanto e pagar tão caro?
O Brasil é uma potência agrícola.
Está entre os maiores produtores mundiais de café, carnes, milho, açúcar, frutas e soja. Ainda assim, os alimentos ocupam parcela cada vez maior do orçamento familiar.
O fenômeno possui explicações econômicas legítimas:
exportações;
câmbio;
custos logísticos;
carga tributária;
combustíveis;
juros elevados.
Mas a população observa apenas o resultado final:
O país produz muito e paga caro.
Quando o cidadão percebe que alimentos básicos acompanham cotações internacionais enquanto os salários continuam locais, nasce um inevitável sentimento de injustiça.
Café: o melhor vai embora?
O Brasil continua sendo o maior exportador mundial de café. Em 2025, as exportações ultrapassaram 58 milhões de sacas, enquanto o consumo interno ficou em aproximadamente 21 milhões de sacas.
A ideia de que “o melhor café é exportado” é parcialmente verdadeira para determinados nichos. Cafés especiais e de alta pontuação possuem forte demanda internacional e alcançam preços muito superiores no exterior. Entretanto, uma parcela crescente desses cafés também vem sendo consumida internamente por um mercado premium em expansão.
O verdadeiro problema talvez não seja a exportação.
É a falta de transparência e de padronização que faz o consumidor questionar a qualidade daquilo que compra.
Quando um país líder mundial em café gera desconfiança no próprio consumidor, existe uma falha sistêmica que precisa ser corrigida.
Tributação: quem sustenta quem?
O trabalhador formal, o empreendedor, o pequeno empresário e o profissional liberal carregam uma das maiores cargas tributárias da América Latina.
Ao mesmo tempo, cresce a dependência de programas sociais.
Programas de assistência são necessários em qualquer sociedade civilizada. O problema surge quando o debate político abandona a promoção da autonomia e passa a tratar a dependência permanente como política pública.
O sucesso de um programa social não deveria ser medido pelo número de beneficiários.
Deveria ser medido pela quantidade de pessoas que deixaram de precisar dele.
A pergunta central para 2027
O Brasil precisa decidir:
Quer continuar sendo uma colônia exportadora de commodities ou uma potência industrial?
Quer cidadãos independentes ou dependentes permanentes do Estado?
Quer energia distribuída ou concentração regulatória?
Quer proteger mercados ou proteger consumidores?
Os governantes que assumirem em 2027 encontrarão um povo mais conectado, mais informado e menos disposto a aceitar respostas superficiais.
A grande questão não é econômica.
É moral.
Quem está no centro das decisões nacionais: o cidadão ou os grupos de interesse?
Enquanto essa pergunta permanecer sem resposta, o Brasil continuará sendo um país extraordinariamente rico, administrado como se fosse pobre. E a conta continuará chegando exatamente a quem sempre pagou por tudo: o contribuinte brasileiro.
Leopoldo Gil Dulcio Vaz é professor de Educação Física e membro da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a cadeira 21, tendo como Patrono Manuel Fran Pacheco.





