Há algum tempo venho escrevendo sobre poetas esquecidos. Não por simples exercício de erudição nem por nostalgia de um passado idealizado. Escrevo porque sempre me inquietou a facilidade com que uma sociedade abandona sua própria memória. Autores que em determinado momento foram lidos, debatidos e admirados desaparecem das estantes, das escolas e das conversas. Permanecem apenas em bibliotecas, arquivos ou na lembrança de alguns leitores persistentes.
Dessa inquietação nasceu uma série de artigos sobre escritores que o tempo e as circunstâncias empurraram para as margens da história literária. Em seguida, outra temática passou a ocupar minha atenção: as chamadas famílias literárias, aquelas em que poetas, jornalistas, professores, memorialistas e escritores aparecem distribuídos por gerações sucessivas, como se a palavra escrita fosse uma herança transmitida de pais para filhos.
Enquanto trabalhava nesses temas, percebi que estava escrevendo também sobre mim mesmo.
A aposentadoria tem desses paradoxos. Depois de uma vida dedicada ao ensino, descobri que minha verdadeira autobiografia não se encontrava nos diplomas, nos cargos ocupados ou nos certificados acumulados ao longo dos anos. Ela estava nos livros que li, nas ideias que me acompanharam e nos autores que ajudaram a moldar meu modo de compreender o mundo.
Minha formação intelectual não seguiu o caminho tradicional dos manuais escolares ou dos grandes clássicos da literatura brasileira. Quando recordo minha infância e juventude, reencontro primeiro as aventuras de Júlio Verne. Seus livros abriram janelas para mundos desconhecidos e despertaram uma curiosidade que nunca mais me abandonou. Ao lado deles estava a coleção Tesouro da Juventude, verdadeira enciclopédia para jovens leitores, na qual se podia viajar pela história, pela geografia, pela ciência, pela arte e pelas biografias de personagens célebres.
Hoje percebo que aqueles volumes tiveram sobre mim uma influência maior do que muitos livros acadêmica lidas posteriormente. Eles ensinaram algo que a educação formal frequentemente esquece: o conhecimento é uma aventura.
Mais tarde vieram os livros de filosofia. Entre eles, as reflexões de Lao Tsé, que me apresentaram uma visão de mundo baseada na simplicidade, na observação e na harmonia. Vieram também filósofos, historiadores e pensadores que me ensinaram a desconfiar das certezas absolutas. Aprendi que pensar significa questionar, comparar perspectivas e aceitar que nenhuma explicação é definitiva.
Durante muitos anos, os livros de História do Brasil ocuparam lugar central em minhas leituras. Eu queria compreender a formação do país, suas contradições e permanências. Aos poucos, fui percebendo que toda produção de conhecimento está ligada à preservação da memória e à circulação da informação.
Talvez por isso meu percurso acadêmico me tenha conduzido ao Mestrado em Ciência da Informação, na área de Informação em Ciência e Tecnologia. Mais do que uma formação técnica, essa experiência ampliou minha compreensão sobre a produção do conhecimento, os processos de registro da memória e os mecanismos pelos quais determinadas informações são preservadas enquanto outras desaparecem.
Essa questão continua a me perseguir. Afinal, quem decide o que merece ser lembrado? Quem define quais autores permanecem vivos e quais serão condenados ao esquecimento? A produção do conhecimento nunca é neutra. Ela reflete escolhas, interesses, instituições e disputas simbólicas.
Quando me transferi para o Maranhão, minhas leituras ganharam uma nova direção. Passei a estudar a história, a cultura e a literatura maranhenses. Descobri um universo intelectual cuja riqueza muitas vezes permanece insuficientemente conhecida até mesmo dentro do próprio estado.
Foi então que encontrei autores como Gonçalves Dias, cuja obra ultrapassa os limites do regionalismo para alcançar dimensão universal; Sousândrade, um visionário que permaneceu incompreendido durante décadas; Ferreira Gullar, cuja trajetória intelectual transcende fronteiras geográficas; José Chagas, Bandeira Tribuzi, Nascimento Moraes e tantos outros escritores, jornalistas e intelectuais que ajudaram a construir a memória cultural maranhense.
Mas também encontrei inúmeros nomes ausentes dos currículos, das reedições e dos estudos literários mais conhecidos. Essa descoberta reforçou uma convicção que venho amadurecendo há anos: o esquecimento cultural raramente é obra do acaso. Muitas vezes, ele resulta da incapacidade das instituições de preservar sua própria memória ou do predomínio de modismos que transformam a cultura em produto descartável.
Minha atuação no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão aprofundou ainda mais essa reflexão. O contato com documentos, periódicos, pesquisadores e acervos permitiu compreender a importância dos esforços coletivos para preservar a memória social. Ali percebi que a cultura de um povo não sobrevive espontaneamente. Ela exige trabalho permanente de investigação, registro e difusão.
Nesse contexto, tive a oportunidade de participar da edição de revistas acadêmicas e projetos voltados para a história e a memória. Curiosamente, uma parte significativa desse trabalho esteve ligada ao esporte, área na qual possuo formação original como licenciado em Educação Física.
Esse percurso também me ensinou algo importante. O esporte não é apenas competição ou espetáculo. Ele faz parte da história social, da identidade coletiva e da memória cultural. Recuperar a trajetória de atletas, clubes, competições e instituições esportivas é também preservar formas de experiência humana frequentemente ignoradas pelos historiadores tradicionais.
Com o tempo, contudo, meu interesse voltou-se cada vez mais para a literatura maranhense e para seus personagens. Foi um retorno natural. Afinal, os livros haviam sido meu primeiro território intelectual.
Hoje percebo que meus trabalhos sobre poetas esquecidos, famílias literárias e lembranças de um professor aposentado constituem, na verdade, diferentes capítulos de uma mesma investigação.
Estou interessado na memória.
Na memória dos escritores que desapareceram das livrarias.
Na memória das famílias que transformaram a palavra escrita em patrimônio transmitido entre gerações.
Na memória dos livros que moldaram a formação de um leitor.
Na memória do esporte, da educação e das instituições culturais.
Na memória de um Maranhão que continua produzindo conhecimento, apesar dos frequentes ciclos de esquecimento que afetam sua vida intelectual.
Vivemos uma época em que a informação circula em velocidade sem precedentes. Paradoxalmente, nunca foi tão fácil esquecer. Produzimos conteúdos em abundância, mas dedicamos pouco tempo à preservação daquilo que produzimos. A novidade tornou-se mais valorizada do que a permanência. O instantâneo passou a valer mais do que o duradouro.
É exatamente contra essa lógica que escrevo.
Ao revisitar os livros de Júlio Verne, os volumes do Tesouro da Juventude, os ensinamentos de Lao Tsé, os estudos históricos, os autores maranhenses e os intelectuais que encontrei ao longo da vida, não estou apenas exercitando a memória pessoal. Estou tentando compreender os caminhos pelos quais o conhecimento é construído, compartilhado e preservado.
Talvez seja essa a verdadeira tarefa de quem envelhece sem renunciar à curiosidade intelectual: transformar lembranças em reflexão e memória em conhecimento.
Porque, ao final de contas, um professor aposentado continua sendo professor. E talvez sua melhor autobiografia não seja a história dos cargos que ocupou, mas a história dos livros que leu, das ideias que cultivou e dos autores que se recusou a deixar cair no esquecimento.
Leopoldo Gil Dulcio Vaz é membro da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a cadeira 21, tendo como Patrono Manuel Fran Pacheco.




