Impostos: o Estado come primeiro, por Leopoldo Vaz

Talvez nenhuma contradição brasileira seja tão evidente quanto a tributária.

Em 2025, a carga tributária bruta nacional atingiu 32,4% do PIB, o maior nível da série histórica iniciada em 2010, segundo o Tesouro Nacional. Isso significa que quase um terço de toda a riqueza produzida pelos brasileiros foi absorvida pelos governos federal, estaduais e municipais.

O cidadão vê o resultado diariamente:

paga imposto quando trabalha;
paga imposto quando consome;
paga imposto quando investe;
paga imposto quando herda;
paga imposto quando produz;
paga imposto quando morre.

Mesmo diante dessa arrecadação gigantesca, continua enfrentando estradas precárias, insegurança pública, filas na saúde e um sistema educacional incapaz de acompanhar os melhores padrões internacionais.

A pergunta inevitável é:

Como um país que arrecada tanto entrega tão pouco?

O escândalo silencioso dos alimentos

Durante décadas, o sistema tributário brasileiro tributou pesadamente produtos essenciais consumidos pela população, agravando justamente a situação daqueles que possuem menor renda.

O próprio debate da Reforma Tributária reconheceu esse problema ao criar uma cesta básica nacional com alíquota zero para diversos alimentos essenciais, entre eles arroz, feijão, leite, café, pão, frutas, legumes, ovos e carnes.

Se o governo decidiu zerar os tributos desses produtos na nova legislação, isso representa o reconhecimento implícito de uma verdade desconfortável:

o sistema anterior tributava excessivamente a alimentação básica dos brasileiros.

Há uma questão de justiça elementar envolvida.

Para uma família milionária, os gastos com alimentação representam uma pequena parcela da renda.

Para uma família pobre, representam frequentemente o maior gasto mensal.

Quando o Estado tributa alimentos essenciais, quem mais sofre é justamente quem tem menos condições de pagar.

O paradoxo da abundância

O Brasil produz alimentos suficientes para centenas de milhões de pessoas.

É líder mundial ou um dos maiores produtores de soja, café, açúcar, milho, carne bovina e aves.

Mesmo assim, milhões de brasileiros convivem com insegurança alimentar ou precisam reduzir a qualidade da alimentação para equilibrar o orçamento doméstico.

A situação torna-se ainda mais paradoxal quando se observa que grande parte das commodities agrícolas é exportada, sujeitando os preços internos à lógica internacional.

Quando o dólar sobe, os produtores preferem exportar.

Quando a exportação aumenta, a oferta interna diminui.

Quando a oferta diminui, os preços internos sobem.

No fim da cadeia, o consumidor brasileiro disputa sua própria comida com o mercado internacional.

Quem governa o Brasil?

Essa talvez seja a pergunta central para os líderes de 2027.

O país continuará organizado para atender interesses setoriais específicos ou será reorganizado para beneficiar quem trabalha, produz, empreende e sustenta toda a estrutura nacional?

Não se trata de atacar o agronegócio, o sistema financeiro, o setor energético ou qualquer atividade econômica legítima.

Trata-se de perguntar algo que deveria ser óbvio em uma democracia:

Por que, em um dos países mais ricos em recursos naturais do planeta, a população continua pagando caro por combustível, energia, alimentos e impostos?

Enquanto essa pergunta permanecer sem resposta, a sensação de injustiça continuará crescendo.

E quando a população perde a confiança de que o esforço individual será recompensado, não é apenas a economia que entra em crise.

É a própria legitimidade do modelo de país que passa a ser questionada.

Fontes principais: Tesouro Nacional (Carga Tributária 2025), Ministério da Agricultura e Pecuária, Lei Complementar 214/2025 da Reforma Tributária, ABIC, Ministério de Minas e Energia.

Observação editorial importante: para publicação em jornal, revista ou portal de opinião, eu recomendaria também incluir dados sobre crescimento dos gastos públicos, número de beneficiários de programas sociais, dívida pública, subsídios ao crédito rural e evolução dos preços dos alimentos entre 2000 e 2026, tornando o texto ainda mais robusto e difícil de ser contestado factualmente.

Leopoldo Gil Dulcio Vaz é professor de Educação Física e membro da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a cadeira 21, tendo como Patrono Manuel Fran Pacheco.