No Silêncio das Águas
Há fotografias que registram um instante.
Outras guardam uma história.
E existem aquelas raras fotografias que conseguem aprisionar uma emoção inteira, preservando para sempre um momento que o tempo jamais conseguirá apagar.
Sempre que olho para esta foto, sinto que ela pertence a essa última categoria.
Ela foi tirada há muitos anos, quando ainda éramos noivos.
A vida estava apenas começando a desenhar os caminhos que percorreríamos juntos. Não imaginávamos quantas alegrias viveríamos, quantos desafios enfrentaríamos, quantas conquistas celebraríamos e quantas lágrimas ainda enxugaríamos um do outro ao longo da jornada.
Naquele dia, porém, nada disso ocupava nossos pensamentos.
Existíamos apenas nós dois.
O mar nos envolvia com suas águas mornas e tranquilas, enquanto o horizonte parecia infinito diante dos nossos olhos.
É curioso como, na juventude, acreditamos que temos todo o tempo do mundo.
Falávamos dos sonhos que construiríamos.
Da casa que teríamos.
Dos filhos que talvez chegassem.
Dos lugares que desejávamos conhecer.
Fazíamos planos sem imaginar que a vida, generosa e imprevisível, nos reservaria muito mais do que sonhávamos.
Enquanto as ondas balançavam suavemente ao nosso redor, segurávamos as mãos um do outro como quem fazia uma promessa silenciosa.
Não houve testemunhas.
Não houve cerimônia.
Mas, de certa forma, ali já existia um compromisso.
O compromisso de caminhar juntos.
De permanecer juntos.
De enfrentar juntos tudo aquilo que a vida colocasse diante de nós.
Naquele tempo, nossos rostos ainda carregavam toda a juventude dos que acreditam que o amor é suficiente para vencer qualquer obstáculo.
E, olhando para trás, descubro que talvez estivéssemos certos.
Porque o amor não impediu que surgissem dificuldades.
Não evitou as tempestades.
Não eliminou as preocupações.
Mas deu forças para atravessar tudo isso.
As águas que aparecem nesta fotografia parecem simbolizar exatamente a passagem do tempo.
Assim como as ondas, os anos chegaram e partiram.
Vieram dias de abundância e dias de preocupação.
Vieram momentos de festa e momentos de silêncio.
Vieram conquistas que celebramos abraçados e desafios que enfrentamos lado a lado.
Vieram os filhos.
Vieram os netos.
Vieram os cabelos brancos.
Vieram as marcas que o tempo deixa em todos nós.
Mas também veio algo muito mais valioso.
Veio a certeza.
A certeza de que o amor verdadeiro não é aquele que permanece bonito apenas nos dias ensolarados.
É aquele que continua firme quando surgem as nuvens.
É aquele que aprende a amadurecer sem perder a ternura.
É aquele que troca a ansiedade da paixão pela serenidade da companhia.
Hoje, olhando para esta imagem, não vejo apenas dois jovens apaixonados dentro do mar.
Vejo duas vidas que começavam a ser entrelaçadas.
Vejo uma história inteira que ainda estava por ser escrita.
Vejo sonhos que se transformariam em realidade.
Vejo a coragem de quem decidiu apostar no amor sem conhecer o futuro.
E talvez seja exatamente isso que torna esta fotografia tão especial.
Ela não mostra apenas quem éramos.
Ela mostra quem estávamos nos tornando.
Cada sorriso presente nela carrega a esperança de um amanhã que ainda não existia.
Cada olhar contém a confiança de quem acreditava que o melhor estava por vir.
E o mais bonito é perceber que estava mesmo.
Porque os anos passaram.
As águas seguiram seu curso.
A juventude ficou para trás.
Mas aquilo que realmente importava permaneceu.
Ainda hoje, quando recordo aquele dia, consigo ouvir o som suave das ondas e sentir a mesma gratidão que senti naquele instante.
Gratidão por ter encontrado alguém com quem compartilhar não apenas momentos felizes, mas uma vida inteira.
Há fotografias que congelam o tempo.
Esta faz mais do que isso.
Ela me lembra que, antes de sermos marido e mulher, antes de sermos pais, avós e companheiros de tantas décadas, éramos apenas dois noivos sonhando juntos diante do mar.
E talvez o segredo da felicidade esteja exatamente aí: nunca deixar de enxergar, na pessoa que está ao nosso lado, aquele mesmo amor que um dia nos fez acreditar que o futuro seria bonito.
Porque, no fim das contas, as ondas passam, os anos passam, a vida passa.
Mas algumas promessas feitas em silêncio permanecem para sempre guardadas no coração.
Roberto Franklin Falcão da Costa
Cadeira Nº 40
Patrono: José Ribamar S. dos Reis
