O relógio do Vinhais Velho marca diferentes horas, por Leopoldo Vaz

Quando penso no Recanto dos Vinhais, descubro que a memória não me devolve primeiro as imagens. Antes da casa, das árvores ou dos caminhos de terra, o que retorna é um som.
Era o estrépito das aves cruzando o céu.
Todos os dias, em horários que pareciam obedecer a uma ordem secreta, bandos de tirivas, papagaios e guarás passavam sobre a casa. Vinham em algazarra, conversando entre si numa linguagem que eu nunca compreendi, mas que aprendi a reconhecer como parte indispensável da vida. Primeiro surgia o rumor distante. Depois, o céu se enchia de movimento. Por fim, restava apenas o silêncio, que parecia maior depois de sua partida.
Na infância e na juventude, raramente damos importância às coisas que se repetem. Acreditamos, talvez, que estarão sempre ali. Por isso eu não imaginava que aqueles voos cotidianos acabariam ocupando um lugar tão duradouro em minhas lembranças.
Pela manhã, as aves seguiam rumo aos locais de alimentação. Cruzavam o horizonte com a urgência de quem conhece o caminho e o destino. Ao entardecer, regressavam aos ninhais. Era o mesmo céu, o mesmo percurso, mas a luz já era outra. Havia então uma espécie de serenidade escondida naquela desordem sonora. Como trabalhadores que retornam para casa depois da jornada cumprida, elas voltavam ao abrigo quando o dia começava a se recolher.
Sem que eu percebesse, aquelas passagens marcavam o tempo. Não os minutos ou as horas, mas algo mais profundo. Marcavam o ritmo da vida. O início das atividades da manhã. A proximidade do crepúsculo. A chegada da noite. As aves eram, à sua maneira, os ponteiros invisíveis de um relógio instalado entre a terra e o céu.
Os anos passaram. Muitas coisas mudaram. Algumas paisagens desapareceram, pessoas seguiram seus caminhos e tantas lembranças se diluíram na corrente do tempo. No entanto, ainda hoje, quando escuto ao longe o voo ruidoso de um bando de aves, sou levado de volta ao Recanto dos Vinhais.
Então compreendo que a memória tem suas próprias escolhas. Ela nem sempre guarda os grandes acontecimentos. Às vezes prefere preservar aquilo que parecia pequeno: um cheiro, uma luz de fim de tarde, um som repetido dia após dia.
Talvez porque seja justamente nesses detalhes que a vida se acomoda.
E, entre todos os sons que ficaram guardados em mim, nenhum é mais fiel do que aquele coro de asas e vozes atravessando o céu. Era o anúncio da partida e a promessa do retorno. Era a natureza lembrando, todos os dias, que o tempo segue seu curso, mas que certas presenças continuam habitando a memória muito depois de terem cruzado o horizonte.

Leopoldo Gil Dulcio Vaz é professor de Educação Física e membro da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a cadeira 21, tendo como Patrono Manuel Fran Pacheco.