Os Beatles e a minha adolescência, por Roberto Franklin

Há músicas que a gente escuta.
E há músicas que a gente vive.
Para mim, os Beatles pertencem à segunda categoria.
Quando eles chegaram à minha adolescência, eu ainda estava descobrindo o mundo. Era uma época em que tudo parecia novo: as amizades, os primeiros sonhos, as primeiras paixões, as descobertas que começavam a transformar o menino que eu era no homem que eu ainda seria.
E, de repente, vieram os Beatles.
Vieram de longe, atravessando o oceano, mas pareciam cantar exatamente aquilo que nós, jovens, sentíamos. Suas músicas falavam de amor, de amizade, de sonhos, de liberdade. Falavam, de certa maneira, de nós.
Eu me lembro daquele tempo com uma saudade difícil de explicar.
A música fazia parte do cotidiano. O rádio ligado, os discos, as conversas com os amigos, as novidades que chegavam e logo se transformavam em assunto entre nós. Quando surgia uma nova música dos Beatles, parecia que o mundo parava um pouco para ouvi-la.
Os Beatles não foram apenas uma banda para a minha geração. Foram parte de uma mudança.
Eles mudaram a maneira de fazer música, de se vestir, de deixar o cabelo crescer, de pensar e até de sonhar. Para nós, adolescentes, havia algo de mágico naquela juventude inglesa que chegava através dos discos e do rádio.
Eu tinha meus sonhos, como todo adolescente.
Sonhava com o futuro, com o amor, com a vida que ainda estava por acontecer. E enquanto a gente crescia, aquelas canções também cresciam dentro da gente.
Hoje, quando ouço uma música dos Beatles, não escuto apenas John, Paul, George e Ringo.
Escuto o adolescente que fui.
É como se o tempo, por alguns minutos, abrisse uma pequena janela para o passado. E por aquela janela eu volto às ruas de São Luís, aos amigos, às conversas, às descobertas, aos primeiros encantamentos e àquela sensação maravilhosa de que a vida estava apenas começando.
Talvez seja esse o maior poder da música: guardar aquilo que o tempo não conseguiu levar.
Muitas coisas daquela época desapareceram. Pessoas seguiram caminhos diferentes. Algumas já não estão mais aqui. Lugares mudaram. A cidade mudou. Eu mudei.
Mas basta uma canção dos Beatles tocar para que tudo volte.
E eu volto também.
Volto a ser aquele menino que ouvia música sem imaginar que, muitos anos depois, aquelas mesmas canções seriam capazes de trazer de volta uma parte inteira da sua vida.
Hoje, olhando para trás, percebo que os Beatles não fizeram apenas a trilha sonora da minha adolescência.
Eles ajudaram a construir a memória dela.
E talvez por isso, quando ouço “Yesterday”, não penso apenas no ontem dos Beatles.
Penso no meu próprio ontem.
Naquele menino que fui.
Nos sonhos que tinha.
Nas pessoas que amei.
E em tudo aquilo que passou, mas que a música, generosamente, resolveu não deixar morrer.
Porque algumas canções não envelhecem.
Elas envelhecem conosco.
E os Beatles continuam jovens dentro da minha memória.

Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a Cadeira Nº 40, Patroneada por José Ribamar S. dos Reis.