Quatro de outubro de 2026, por Osmar Gomes dos Santos

Caminhar até a seção eleitoral em uma manhã de outono ou primavera tem um ritual quase sagrado. Entre cartazes e santinhos espalhados pelas ruas e a expectativa coletiva, há um silêncio momentâneo que precede a decisão. O silêncio que antecede o voto é um dos raros instantes em que o barulho do mundo se recolhe.

Do lado de fora da seção eleitoral, sobretudo no período da campanha oficial, bandeiras tremulam, panfletos forram as calçadas como folhas secas de outono e o som dos alto-falantes anuncia promessas que disputam o futuro. Mas, quando a porta da cabine se fecha, o ruído cessa. Ali dentro, o cidadão está sozinho com a sua consciência e com o tamanho de sua responsabilidade.

Naquele metro quadrado, não há classe social, fama ou fortuna que pese mais do que a outra: o dedo indicador de quem construiu impérios tem exatamente o mesmo valor daquele calejado pelo trabalho na roça, na pescaria, no quebrar côco babaçu . É a epifania mais pura da igualdade republicana, em que algo oculto se torna realidade.

Contudo, a verdadeira democracia é um organismo teimoso e exigente; ela recusa os atalhos da acomodação. Votar não se resume a cumprir um ritual burocrático a cada eleição, nem se esgota com o barulho mecânico da urna ou na tinta azul do dedo indicador. Votar é um ato contínuo. É o exercício diário de fiscalizar, de discordar sem ódio, de debater ideias sem desumanizar o adversário e de recusar o canto de sereia das soluções fáceis.

O voto livre é uma semente que, para germinar, precisa ser regada pela cobrança constante e pela participação ativa na vida da comunidade.
Muitas vezes, corremos o risco de esquecer o preço alto que custou esse direito. A história humana está coalhada de sombras e cassetetes, de tempos em que a voz do povo era tratada como subversão e a soberania era monopólio de poucos. Cada voto depositado hoje carrega o eco invisível de passos que marcharam no escuro, de vozes que desafiaram a censura e de vidas que tombaram para que pudéssemos ter o direito de escolher — e de errar, e de tentar de novo. Ignorar esse legado é desperdiçar a herança mais preciosa que uma geração pode deixar à seguinte.

Por isso, a soberania popular não combina com a apatia. Ela nos convida a ir além do entusiasmo passageiro das campanhas eleitorais e a encarar a política como o cuidado cotidiano com a nossa “casa comum”. A democracia plena não é a unanimidade — que, de tão perfeita, costuma ser o disfarce favorito da tirania —, mas sim a arte civilizada de conviver com as diferenças e decidir, coletivamente, os rumos que vamos tomar.

Quando a apuração termina e o resultado é proclamado, a verdadeira democracia se renova no pacto de aceitar o veredito das urnas, mantendo, ao mesmo tempo, os olhos abertos sobre quem venceu. O voto livre nos lembra que a história não acontece apenas aos outros, de forma abstrata: ela é escrita por nossas próprias mãos, um voto de cada vez, na certeza inabalável de que a liberdade, quando conquistada pelo povo, torna-se um caminho sem volta.

Osmar Gomes dos Santos é juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA) e presidente da Academia Ludovicense de Letras. É membro da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da Academia Literária do Maranhão e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.