Sinfonia sobre o vinhais velho: o relógio das asas, por Leopoldo Vaz

No Recanto dos Vinhais, há um relógio que não marca horas,
mas anuncia o tempo com asas e vozes.
São tirivas, papagaios e guarás que, em bandos inquietos, riscam o céu sobre a casa. Seu voo ruidoso atravessa as manhãs e as tardes, seguindo caminhos antigos, conhecidos apenas por eles, rumo aos campos de alimento e, depois, de volta aos ninhais.
O ar se enche de gritos, de cantos e de pressa. É um rumor selvagem que desperta lembranças e desperta o próprio dia. E quando retornam, tingindo o horizonte com seu movimento incessante, trazem consigo a certeza do entardecer.
Há algo de eterno nesse ritual. Nenhum calendário o registra, nenhuma máquina o governa. Ainda assim, repete-se com uma fidelidade que só a natureza conhece. Todos os dias, sem exceção, o céu conta a mesma história: a partida e o regresso, o princípio e o fim.
E assim, entre o primeiro voo da manhã e a última passagem sobre os telhados, o bando desenha no ar a passagem do tempo, lembrando que a vida, como as aves, é feita de partidas e retornos.

Leopoldo Gil Dulcio Vaz é professor de Educação Física e membro da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a cadeira 21, tendo como Patrono Manuel Fran Pacheco.