Um dia sem celular, por RobertoFranklin

Tudo começou hoje pela manhã. Saí de casa e, depois de algum tempo, percebi que havia esquecido o celular. A primeira reação foi de preocupação. O que fazer? Voltar para buscá-lo! E assim fiz. Resultado: uma incrível perda de tempo, provocada pela ausência de um aparelho que, até pouco tempo atrás, não fazia parte da nossa rotina.
Foi essa experiência que me levou a uma pergunta: o que seria de nós, seres humanos, se passássemos um dia inteiro sem celular?
Parece uma pergunta simples, mas basta observar as pessoas ao nosso redor para perceber o quanto nos tornamos dependentes desse pequeno aparelho. Estamos no restaurante, ele está sobre a mesa. Esperamos uma consulta, lá está ele em nossas mãos. Estamos reunidos com a família, mas, muitas vezes, cada um está ocupado com seu próprio mundo, olhando para uma tela.
Em que momento permitimos que o celular passasse a ocupar tanto espaço em nossas vidas?
Lembro-me de um tempo em que as conversas aconteciam sem notificações, as visitas não precisavam ser anunciadas por mensagens e as pessoas se reuniam para conversar, rir e contar histórias. Não precisávamos fotografar cada momento para provar que havíamos vivido alguma coisa. Simplesmente vivíamos!
Não quero condenar a tecnologia. Graças a ela, posso conversar com meus filhos e netos, inclusive com aqueles que estão longe. Isso é maravilhoso! O problema começa quando o aparelho que aproxima quem está distante acaba nos afastando de quem está ao nosso lado.
Quantas conversas interrompemos para responder a uma mensagem? Quantas vezes deixamos de prestar atenção em alguém porque uma notificação pareceu mais importante? E quantos momentos preciosos passam sem que percebamos?
Na minha rotina, gosto de caminhar, ouvir música e escrever minhas crônicas. São momentos em que encontro tranquilidade para pensar, recordar e transformar lembranças em palavras. Imagino quantas dessas pequenas alegrias perderíamos se não conseguíssemos nos desligar das telas.
E se amanhã resolvêssemos passar um dia sem celular? Talvez, no começo, sentíssemos falta das notícias, das mensagens e das redes sociais. Mas o sol continuaria nascendo, o café continuaria quente e a vida seguiria seu curso. Descobriríamos que o mundo não precisa da nossa atenção a cada minuto para continuar existindo.
Ao longo da vida, vi muita coisa mudar. A tecnologia avançou, os costumes se transformaram e a comunicação ganhou uma velocidade extraordinária. Entretanto, não gostaria que, em nome da modernidade, perdêssemos a capacidade de olhar nos olhos, ouvir com atenção e aproveitar a companhia de quem amamos.
Afinal, o tempo passa, os filhos crescem, os netos mudam e os momentos vividos em família não voltam. Não podemos deixar que a preocupação em estar conectados com o mundo nos faça esquecer de viver a vida que acontece diante dos nossos olhos.
Por isso, deixo uma sugestão: experimente ficar algumas horas sem celular. Converse com alguém, ouça uma música, leia um livro ou simplesmente aproveite o silêncio.
E você, já imaginou como seria o seu dia sem esse aparelho? Conseguiria sair de casa sem sentir que está esquecendo alguma coisa?
Hoje, precisei voltar para buscar o meu. Perdi tempo, é verdade, mas ganhei uma reflexão que talvez não tivesse feito se tudo tivesse corrido normalmente.
O celular pode nos conectar com o mundo inteiro, mas não pode viver a vida em nosso lugar.
E fica a pergunta: será que somos nós que carregamos o celular ou já é ele que nos carrega?

Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a Cadeira Nº 40, Patroneada por José Ribamar S. dos Reis.