Estudo comparativo entre o Atlântico europeu e o Atlântico brasileiro, por Leopoldo Vaz

Felos y Madamas de Esgos, Ourense. Encontros de Rituais Ancestrais de Bemposta

Se observarmos máscaras, vestimentas rituais, cortejos, danças cerimoniais, inversão de papéis sociais, festa religiosa e teatralidade coletiva, encontraremos um conjunto de tradições aparentadas que remontam a matrizes: pré-cristãs (celtas, lusitanas, ibéricas e mediterrâneas); medievais europeias; católicas barrocas; indígenas americanas; africanas.
Podemos chamar esse fenômeno de “Encontros de Rituais Ancestrais”.
1. Portugal: os rituais mascarados ancestrais
Nas regiões do norte de Portugal sobrevivem tradições muito antigas.
Caretos de Podence (Trás-os-Montes) – Características: máscaras de couro ou lata; roupas vermelhas, amarelas e verdes; chocalhos presos ao corpo; danças e corridas cerimoniais. São considerados remanescentes de rituais de inverno e fertilidade anteriores ao cristianismo.

Chocalheiros de Bemposta
Semelhantes aos caretos: máscaras demoníacas; roupas exuberantes; procissões e perseguições simbólicas.

Festa dos Rapazes
Encontrada em diversas aldeias transmontanas. Elementos: juventude mascarada; inversão de hierarquias; passagem para a vida adulta.

2. Açores: ponte entre Portugal e Brasil
Os Açores tiveram enorme influência na formação cultural de Santa Catarina e, em menor grau, de algumas áreas do Norte e Nordeste brasileiro.
Espírito Santo – A Festa do Divino Espírito Santo apresenta: coroação simbólica; imperadores do Divino; cortejos; vestes cerimoniais; distribuição ritual de alimentos. Essa tradição chegou ao Brasil.

Danças e bailes tradicionais
Nos Açores persistem: bailinhos; foliões; mascarados de carnaval; procissões dramáticas. Muitas dessas práticas atravessaram o Atlântico.

3. Santa Catarina: a herança açoriana
Talvez seja a região brasileira onde a marca açoriana seja mais visível.
Festa do Divino – Encontrada em: Florianópolis; Ribeirão da Ilha; Santo Antônio de Lisboa; São José.
Elementos comuns aos Açores: bandeiras do Divino; cortejos; coroações; rituais comunitários.

Boi de Mamão
Possui semelhanças estruturais com: Bumba-Meu-Boi do Maranhão; autos ibéricos; teatro popular português. Personagens mascarados: boi; cavalinho; bernunça; maricota.

4. Maranhão: o grande encontro atlântico
O Maranhão talvez seja um dos lugares onde mais tradições atlânticas se fundiram.
Bumba-Meu-Boi – Reúne:
Europeu: autos medievais; teatro popular português; festas do ciclo natalino.
Africano: tambor; dança circular; ancestralidade.
Indígena: penas; pajelança; cosmologia nativa.
Vestimentas: bordados luxuosos; mantos cerimoniais; personagens ritualizados.

Cazumbá
O caso mais interessante. Características: máscara integral; figura liminar; comportamento imprevisível; função ritual. Muitos estudiosos veem paralelos entre o cazumbá maranhense e: caretos portugueses; mascarados espanhóis; figuras africanas dos cultos de iniciação.

Festa do Divino no Maranhão
Particularmente em Alcântara e São Luís. Possui: império do Divino; crianças imperadoras; cortejos; trajes nobres; cerimônias barrocas. Trata-se de uma herança luso-açoriana fortemente reelaborada.

5. Espanha: os grandes mascarados ibéricos
Zamora – Zangarrón – Possui: máscara; sinos; traje multicolorido; dança ritual. Semelhante aos caretos.

Galícia – Peliqueiros e Cigarróns. Características: máscaras rígidas; chocalhos; autoridade ritual. Elementos notavelmente próximos de: caretos portugueses; cazumbás maranhenses.

6. Possíveis paralelos simbólicos
Portugal Açores Santa Catarina Maranhão Espanha
Caretos Bailinhos mascarados Boi de Mamão Cazumbá Peliqueiros
Festa dos Rapazes Divino Espírito Santo Festa do Divino Festa do Divino Festas de Inverno
Chocalheiros Folias Folguedos populares Bumba-Meu-Boi Zangarrón
Máscaras de fertilidade Procissões Cortejos Máscaras do Cazumbá Máscaras zoomórficas
Uma hipótese antropológica interessante
Se analisarmos apenas os elementos estruturais, encontramos um padrão recorrente:
1. Máscara transforma a identidade.
2. Roupa exuberante marca o personagem ritual.
3. Música repetitiva induz participação coletiva.
4. Cortejo ocupa o espaço público.
5. Inversão social temporária.
6. Ligação com fertilidade, colheita, renovação ou devoção religiosa.

Sob essa perspectiva, o Cazumbá do Maranhão, os Caretos de Trás-os-Montes, os Peliqueiros da Galícia, os mascarados açorianos e alguns personagens do Boi de Mamão de Santa Catarina podem ser entendidos como expressões locais de um mesmo grande fenômeno cultural atlântico: a sobrevivência de antigos rituais mascarados europeus recriados no encontro com culturas africanas e indígenas.
Para um estudo sobre São Luís e o Maranhão, o paralelo mais fecundo é provavelmente:
Caretos de Trás-os-Montes → Açores → Festa do Divino → Cazumbá e Bumba-Meu-Boi do Maranhão, observando como a máscara ritual passou por sucessivas transformações ao longo do Atlântico português.

Leopoldo Gil Dulcio Vaz é membro da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a cadeira 21, tendo como Patrono Manuel Fran Pacheco.