Cânone literário maranhense: o que devemos esperar? Por Leopoldo Vaz

Durante décadas, a história da literatura maranhense foi contada a partir de um conjunto relativamente reduzido de autores consagrados. Gonçalves Dias, Aluísio Azevedo, Sousândrade, Graça Aranha e, mais recentemente, Ferreira Gullar, formaram o núcleo de um cânone que projetou o Maranhão nacionalmente e ajudou a consolidar a imagem de São Luís como a lendária “Atenas Brasileira”.
Esse patrimônio cultural é inegável. Nenhuma revisão séria do cânone pretende diminuir a grandeza desses autores. O que está em discussão é outra questão: a literatura maranhense resume-se a eles?
A crítica contemporânea tem demonstrado que não. O processo de revisão do cânone que ocorre em diversas partes do mundo chegou também ao Maranhão, propondo uma reflexão sobre quais vozes foram historicamente privilegiadas e quais permaneceram fora dos livros didáticos, das universidades e das histórias literárias.
Uma das recuperações mais importantes foi a de Maria Firmina dos Reis, hoje reconhecida como a primeira romancista negra do Brasil e autora de Úrsula, obra fundamental da literatura brasileira. Sua reinserção no debate acadêmico mostrou que nem sempre os critérios de consagração refletem apenas a qualidade estética das obras. Muitas vezes, refletem também relações de poder, gênero, raça e classe.
A partir dessa revisão, outras escritoras passaram a ocupar espaço crescente nos estudos literários, entre elas Arlete Nogueira da Cruz, Aurora da Graça, Lindevânia Martins e diversas vozes contemporâneas que vêm ampliando a representação feminina na literatura maranhense.
Mas a revisão não se limita à questão de gênero.
Outro movimento relevante é a valorização de autores e produções culturais do interior do estado. Durante muito tempo, a literatura maranhense foi identificada quase exclusivamente com São Luís. Hoje, pesquisadores procuram destacar contribuições oriundas da Baixada Maranhense, da Região Tocantina, do Sertão e de outras áreas que produziram expressões culturais próprias e igualmente significativas.
Nesse contexto, surge uma questão ainda mais profunda: o cânone deve continuar restrito à literatura escrita?
A pergunta parece simples, mas possui implicações decisivas para a cultura maranhense.
Grande parte da riqueza cultural do Maranhão foi construída pela oralidade. As toadas do Bumba Meu Boi, os cantos do Tambor de Crioula, as narrativas da Encantaria, os contadores de histórias, os mestres de cultura popular, os cordelistas, as tradições indígenas e quilombolas constituem uma produção simbólica que atravessa séculos e continua viva na memória coletiva.
Entretanto, raramente essas manifestações foram reconhecidas como parte da literatura maranhense em sentido pleno.
Quando se fala em literatura, costuma-se pensar imediatamente em livros, romances e poemas impressos. Porém, muitas culturas produziram suas maiores obras por meio da palavra falada. Os poemas homéricos da Grécia antiga, por exemplo, existiram oralmente antes de serem registrados por escrito.
Por que seria diferente no Maranhão?
Se um poeta é reconhecido pela força de seus versos impressos, por que um mestre da cultura popular que compõe centenas de toadas capazes de atravessar gerações não deveria receber atenção semelhante?
Figuras como Mestre Humberto de Maracanã e outros amos de boi ajudaram a construir um repertório poético que emociona, ensina e transmite valores culturais. Suas composições fazem parte da memória maranhense tanto quanto muitos textos presentes nos manuais escolares.
A verdadeira revisão do cânone talvez dependa justamente dessa ampliação de perspectiva.
Não basta acrescentar novos nomes à lista dos antigos consagrados. É necessário repensar os próprios critérios de reconhecimento cultural. Isso significa abrir espaço para autoras historicamente invisibilizadas, escritores negros, vozes indígenas, autores do interior e também para as expressões da oralidade que ajudaram a formar a identidade coletiva do estado.
O Maranhão do século XXI continua sendo a terra de Gonçalves Dias, Aluísio Azevedo, Sousândrade e Ferreira Gullar. Mas é também a terra de Maria Firmina dos Reis, dos mestres do Bumba Meu Boi, dos narradores da Encantaria, dos poetas populares e das novas gerações de escritores espalhados por todas as regiões do estado.
A questão central não é quem deve sair do cânone. A verdadeira pergunta é outra: estaremos preparados para reconhecer a literatura onde ela sempre esteve, mas nem sempre quisemos enxergar?
Uma cultura se fortalece quando preserva seus clássicos. Torna-se ainda mais rica quando encontra espaço para ouvir as vozes que ficaram à margem de sua própria história. O futuro do cânone maranhense dependerá precisamente dessa capacidade de conciliar memória e renovação.

O Cânone Maranhense Precisa de Revisão?
A revisão do cânone literário maranhense não significa substituir Gonçalves Dias, Aluísio Azevedo, Sousândrade ou Ferreira Gullar. Significa ampliar o olhar sobre a produção cultural do estado.
A redescoberta de Maria Firmina dos Reis mostrou que a história literária nem sempre contemplou todas as vozes relevantes. Hoje, cresce o reconhecimento de escritoras, autores do interior, intelectuais negros e novas gerações de escritores.
O desafio maior, porém, talvez esteja na inclusão da oralidade. As toadas do Bumba Meu Boi, os cantos do Tambor de Crioula, as narrativas da Encantaria e a produção de mestres da cultura popular fazem parte da memória cultural maranhense, embora raramente apareçam nos estudos literários tradicionais.
Mais do que aumentar uma lista de autores, a revisão do cânone propõe uma pergunta essencial: a literatura maranhense está apenas nos livros ou também na voz de um povo que há séculos conta, canta e preserva suas histórias?

Leopoldo Gil Dulcio Vaz é membro da Academia Ludovicense de Letras, ocupando a cadeira 21, tendo como Patrono Manuel Fran Pacheco.