A Amarelinha pesou, por Osmar Gomes dos Santos

Encerramos nossa participação na Copa do Mundo de 2026. Ponto final! Ao refletir ao longo da semana sobre a eliminação da seleção brasileira, chego à conclusão de que há derrotas que não terminam quando o árbitro sopra o apito final.

Elas insistem em permanecer na sala de casa, sentadas à mesa do almoço de domingo, escondidas entre a fumaça do churrasco e o silêncio que sucede o último lance da partida.

A eliminação do Brasil foi uma dessas. Não doeu apenas pelo resultado, mas porque parecia anunciada, ainda que renovássemos a esperança a cada jogo. Ainda assim, ninguém quis acreditar.

Em resumo: a participação da Amarelinha foi um fiasco!

Um contraste para um país que continua sendo uma fábrica de craques. Exportamos talento como quem exporta café, minério. Meninos deixam campos de terra batida para vestir as camisas mais pesadas da Europa.

Tornam-se protagonistas em Madri, Manchester, Paris, Milão. São reverenciados por torcidas estrangeiras, disputam finais, levantam taças e fazem do impossível um gesto comum.

Mas parece haver uma barreira invisível, que transforma esses gigantes em jogadores comuns quando defendem a Seleção Brasileira. Outro paradoxo, considerando estarem vestindo a camisa mais respeitada do futebol mundial.

O brilho diminui, a ousadia desaparece, uma estranha timidez toma conta das pernas que outrora bailavam e o futebol parece perder o sotaque. Tudo muito mecânico, previsível.

Talvez seja injusto atribuir tudo à falta de amor à camisa ou de identidade. Talvez o problema seja mais profundo, revelando a ausência de um projeto, que, inclusive, ficou notório no período pré-Copa.

Já começamos com um tal “vai brasa” em nossa camisa, que nada diz da nossa expressão nacional. Para completar, o símbolo de um jogador de basquete, onde deveria estar a assinatura do maior jogador de todos os tempos.

O uniforme azul e amarelo, que um dia libertou tantos gênios indomáveis, hoje parece aprisionar os talentos. Peças de uma engrenagem emperrada, como músicos que estão na mesma sintonia. No banco, um maestro que não rege sua orquestra.

Quando surgiu o pênalti que poderia mudar a história da partida, Vini Junior preferiu entregar a responsabilidade. O gesto resumiu bem o que uma seleção que escolheu hesitar, justamente quando a história exigia coragem.

Endrick nos fez gritar gol muito antes da hora. O estádio congelou por alguns segundos. Recolhemos o sorriso, incrédulos com a bola saindo caprichosamente pela linha de fundo.

Antes que pudéssemos recuperar o fôlego, Haaland apareceu. Atravessou nossa defesa como quem passeia por uma rua conhecida. Nossa zaga apenas acompanhou o desfile do “ciborgue de gelo”. Frio, calculista, mortal.

Marcou uma e depois outra vez, enterrando de vez o sonho de um empate. A apatia, que já era grande, tomou conta de vez. Nem mesmo a conversão do pênalti por Neymar conseguiu devolver algum sopro de esperança.

A derrota para a Noruega condensou tudo o que havia de errado.

O torcedor, sujeito simples, que paga caro pela camisa oficial, tem o direito de perguntar se aqueles rapazes ainda reconhecem o país que os revelou? Será que o Brasil virou apenas o lugar onde nasceram?

Bom que se diga: nunca tivemos tantos jogadores brilhando simultaneamente nos maiores clubes do planeta. Paradoxalmente, há muito tempo não vemos uma equipe brasileira capaz de encantar.

Outras copas virão, o calendário não para. Novas promessas ocuparão as manchetes e novos craques vão surgir. Mas, ao lançar o olhar para o horizonte de 2026, é difícil enxergar sinais de uma renovação capaz de devolver a confiança.

O brilho da Copa, no entanto, ficou por conta do povo brasileiro, que pintou ruas, pendurou bandeirinhas, vestiu o verde e amarelo e venceu onde a Seleção fracassou.

Famílias e amigos que há meses ou anos não se encontravam, reuniram-se para almoçar juntos. Carne na brasa, cerveja gelada e um bom motivo para confraternizar. Esses sorrisos e abraços o fracasso não ofuscou.

Penso que se restou algo de positivo nesta Copa foi a positividade do povo brasileiro, que deixou uma centelha para, quem sabe, reacender a chama em um próximo ciclo.

O desejo é de que a seleção reencontre seu futebol; enquanto isso, o brasileiro continuará fazendo aquilo que sabe como poucos: transformar noventa minutos em um motivo para celebrar a amizade, a família.

Que venham os próximos quatro anos. Aos nossos jogadores, tenham uma certeza: estaremos a postos. E vocês?

Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA) e presidente da Academia Ludovicense de Letras. É membro da Academia Ludovicense de Letras, da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da Academia Literária do Maranhão e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.