A Porta da Infância, por Roberto Franklin

A porta onde deixei a infância e saí o homem que me tornei
Há portas que são apenas portas, abrem e fecham, permitem a entrada e a saída, protegem uma casa ou um prédio, mas existem outras que guardam nossas histórias, nossos sonhos, nossas amizades, nossas descobertas e uma parte inteira da nossa vida.
Esta porta da fotografia é uma delas.
Foi por ela que entrei, aos 12 anos, no Colégio Dom Bosco, em São Luís do Maranhão. Eu era apenas um menino, cheio de sonhos e ainda sem saber exatamente o que o mundo me reservaria. Ali comecei a primeira série do ginásio, levando comigo a curiosidade de uma criança e a esperança de quem começava a descobrir a vida.
Durante aqueles anos, aquela porta se tornou parte da minha história. Por ela entrei tantas tardes, carregando livros, cadernos, preocupações de estudante e também as pequenas alegrias da adolescência. Por ela passei enquanto crescia, enquanto aprendia, enquanto deixava lentamente de ser criança para me transformar no homem que um dia eu seria.
Mas, além do conhecimento que ali aprendi, aquela escola me deu algo que o tempo jamais conseguiu apagar: amigos.
Amigos que fizeram parte daqueles anos, que compartilharam comigo as descobertas da adolescência, as brincadeiras, as conversas, as preocupações com as provas, os sonhos e as esperanças de um futuro que parecia tão distante.
Alguns desses amigos continuam presentes até hoje. A vida nos levou por caminhos diferentes, mas, vez por outra, nos encontramos ou conversamos e, quase sempre, basta uma palavra para que tudo volte. Falamos daquela época, lembramos dos professores, das salas de aula, das histórias que vivemos e, por alguns instantes, parece que o tempo não passou.
É curioso como certas amizades sobrevivem aos anos. Mudamos, envelhecemos, constituímos famílias, seguimos profissões diferentes, mas existe uma parte de nós que permanece naquele tempo. Talvez porque a amizade construída na juventude tenha raízes profundas, plantadas quando ainda estávamos aprendendo quem éramos.
E foi por essa mesma porta que desci pela última vez, aos 18 anos, ao terminar o terceiro ano do científico.
Lembro-me de que, naquele dia, eu não sabia que estava me despedindo de uma das fases mais importantes da minha vida. Saí dali com o coração cheio de sonhos e com aquela certeza própria dos jovens de que o mundo nos pertencia. Eu tinha 18 anos e acreditava que poderia conquistar tudo o que desejasse.
O tempo passou.
Aquele menino cresceu, formou-se em Odontologia, trabalhou por quarenta e cinco anos em seu consultório, constituiu família, enfrentou alegrias e dificuldades, aprendeu com os acertos e, principalmente, com os erros. A vida ensinou que o mundo não é nosso, mas que podemos construir nele o nosso lugar, deixando um pouco de nós por onde passamos.
Hoje, aposentado, olho para trás com serenidade e percebo que muito do que sou começou naquela escola. Os ensinamentos que recebi, a disciplina, os valores, o gosto pelo conhecimento e tantas outras lições acompanharam-me pela vida inteira.
E talvez seja por isso que hoje eu possa dizer, com orgulho e gratidão, que me realizei.
Aquele menino que entrou pela porta aos 12 anos tornou-se homem, profissional, esposo, pai, avô e, mais tarde, escritor. Hoje tenho a alegria de pertencer à Academia Ludovicense de Letras, a ALL, e de ter publicado livros de poesia e crônicas. Continuo escrevendo porque descobri que as palavras também são uma forma de preservar a vida e conversar com o tempo.
Hoje, quando passo diante daquele prédio histórico de São Luís, onde funcionou o Colégio Dom Bosco do Maranhão, quase sempre paro por alguns instantes.
Fico diante daquela porta e procuro, na memória, aquele menino cheio de sonhos, subindo aquela escada com seus livros nas mãos, sem imaginar tudo o que a vida lhe reservaria.
Procuro também o jovem de 18 anos que, anos depois, desceu por aquela mesma escada, talvez apressado para encontrar o futuro, carregando pensamentos, sonhos e a certeza de que estava pronto para enfrentar o mundo.
E então percebo que, de alguma maneira, os dois ainda estão ali.
O menino que entrou e o homem que saiu.
Um cheio de sonhos que ainda não conhecia a vida.
O outro cheio de pensamentos e sonhos, acreditando estar pronto para ela.
Quando olho para esta fotografia, portanto, não vejo apenas uma porta antiga.
Vejo o menino que fui.
Vejo os amigos que encontrei.
Vejo os professores e os ensinamentos que ficaram.
Vejo o jovem de 18 anos que saiu dali acreditando que o mundo era seu.
E vejo o homem que hoje retorna apenas com os olhos e com a memória, trazendo consigo uma vida inteira.
Tenho muito a agradecer ao casal Dr. Luís Pinho e professora Maria Isabel, pelo Colégio Dom Bosco e por tudo aquilo que aquela instituição representou na minha formação. Mais do que uma escola, foi um lugar onde aprendi a ser, a sonhar, a caminhar pela vida e, sobretudo, onde encontrei pessoas que fizeram parte da minha história.
Talvez algumas portas nunca se fechem completamente.
Elas permanecem abertas dentro de nós, escondidas na memória, esperando apenas uma fotografia, um cheiro, uma lembrança, uma conversa com um velho amigo ou um instante de silêncio para se abrirem novamente.
E quando essa porta se abre dentro de mim, eu volto a ter 12 anos.
Entro novamente como menino.
Subo aquela escada cheio de sonhos.
E, alguns anos depois, desço como homem, aos 18, pensando que o mundo era meu.
Hoje sei que o mundo não era meu.
Mas a história que vivi, os ensinamentos que recebi, os amigos que encontrei, os amores que conheci, os livros que escrevi e as pessoas que caminharam comigo são, para sempre, parte de mim.
Talvez seja essa a verdadeira riqueza da vida: perceber que não levamos conosco os prédios, as portas ou as escadas, mas levamos as histórias que vivemos dentro deles.
E aquela porta do velho Colégio Dom Bosco continuará sendo, para mim, muito mais do que uma porta.
Será sempre o lugar onde entrou um menino de 12 anos e, anos depois, saiu o homem que me tornei.

Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras
Cadeira Nº 40
Patrono: José Ribamar S. dos Reis