
Às vezes penso que, depois de tantos anos ao seu lado, já deveria ter dito tudo. Mas então percebo que o amor nunca termina de encontrar palavras. Sempre existe alguma coisa que ficou guardada, uma lembrança que merece ser contada, um sentimento que ainda não encontrou coragem para sair do coração.
Tenho tanto para te falar que talvez uma crônica inteira não seja suficiente.
Quero começar dizendo que ainda me lembro de nós dois no início de nossa história. Éramos jovens, cheios de sonhos e planos, sem imaginar quantas páginas a vida escreveria para nós. Naquele tempo, não sabíamos que o amor verdadeiro não seria feito apenas de momentos felizes. Ele também seria construído nas dificuldades, nas escolhas, nas renúncias, na paciência e, sobretudo, na vontade de continuar caminhando juntos.
E nós continuamos.
Luciane, quando olho para trás, vejo muito mais do que quarenta e nove anos de casamento. Vejo uma vida inteira compartilhada. Vejo nossa família crescendo, nossos quatro filhos, nossas noras e nosso genro, os nove netos chegando e trazendo novas alegrias, novos sonhos e uma nova maneira de compreender o significado de família.
Vejo também tudo aquilo que somente nós dois conhecemos: as preocupações que dividimos, as decisões difíceis, os momentos de alegria, as pequenas discussões, as reconciliações, os abraços silenciosos e aqueles instantes em que bastava um olhar para sabermos exatamente o que o outro estava pensando.
Tenho tanto para te falar, Luciane, que não sei por onde começar.
Talvez devesse agradecer.
Agradecer pela companhia, pelo carinho, pela paciência e pela vida que construímos juntos. Agradecer por ter estado ao meu lado quando tudo parecia fácil e, principalmente, quando nem tudo era tão simples.
Agradecer pelas manhãs em que acordamos juntos, pelos cafés compartilhados, pelas conversas, pelas risadas e também pelos silêncios. Porque aprendemos que amar não significa necessariamente estar sempre falando. Às vezes, o amor está justamente naquele silêncio confortável de quem não precisa explicar nada.
Depois de tantos anos, você se tornou parte das minhas lembranças, dos meus hábitos, dos meus pensamentos e até dos meus silêncios.
Você está nas pequenas coisas.
No lugar que ocupa dentro de casa. Na maneira como pronuncio seu nome. Nas histórias que contamos tantas vezes que já sabemos o final. Nas fotografias antigas. Nos momentos que só nós dois conseguimos recordar exatamente como aconteceram.
Você está em tudo aquilo que construímos.
E talvez seja essa a forma mais bonita de amar: perceber que duas pessoas, depois de tantos anos, já não vivem apenas uma ao lado da outra. Vivem também dentro das lembranças uma da outra.
Luciane, o tempo passou.
Mudaram nossos rostos, nossos cabelos, nossos passos e algumas das nossas prioridades. A juventude ficou para trás, mas trouxe consigo algo muito maior: a certeza de que o amor pode amadurecer sem perder a ternura.
Hoje, talvez eu não tenha mais o mesmo coração acelerado de quando nos conhecemos.
Tenho algo diferente.
Tenho a tranquilidade de quem sabe onde encontrou seu lugar.
E o meu lugar, muitas vezes, continua sendo ao seu lado.
Se pudesse voltar ao início de nossa história, sabendo tudo o que viveríamos, eu escolheria você novamente.
Escolheria os dias de sol e também os dias de chuva. Escolheria as alegrias e as dificuldades. Escolheria nossa família, nossas histórias, nossas conquistas e até os caminhos que não foram exatamente como planejamos.
Escolheria tudo outra vez.
Porque, no fim, entre tantas coisas que a vida me ofereceu, uma das maiores foi ter encontrado você.
Eu tenho tanto para te falar, Luciane…
Tenho que dizer que ainda gosto de olhar para você.
Que ainda gosto de ouvir sua voz.
Que ainda me sinto feliz quando estamos juntos.
Que ainda existem momentos em que olho para você e penso em como foi bonito o destino ter colocado nossos caminhos no mesmo lugar.
Tenho ainda sonhos para dividir, viagens para fazer, manhãs para viver, histórias para escrever e muitos momentos para guardar.
E se alguém me perguntasse hoje o que significa envelhecer ao lado de alguém que amamos, eu responderia:
É continuar reconhecendo aquela pessoa mesmo depois de tantos anos.
É olhar para ela e enxergar, ao mesmo tempo, a jovem que um dia conhecemos e a mulher que a vida transformou.
É descobrir que o amor não desaparece com o tempo.
Ele apenas muda de forma.
Fica mais sereno, mais profundo, mais cúmplice.
E, talvez, ainda mais bonito.
Por isso, Luciane, se algum dia você me perguntar se eu ainda tenho algo para lhe dizer, a resposta será sempre a mesma:
Eu tenho tanto para te falar.
Tenho muito a agradecer.
Muito a recordar.
Muito a viver.
E, principalmente, muito a amar.
Depois de quarenta e nove anos, eu não quero apenas lembrar o que vivemos.
Quero continuar escrevendo nossa história.
Porque ainda tenho você.
E enquanto tivermos tempo, ainda haverá uma nova manhã, um novo abraço, uma nova conversa e uma nova oportunidade de dizer aquilo que, apesar de tantos anos, nunca me canso de repetir:
Luciane, eu amo você.
E escolheria você novamente.
Hoje.
Amanhã.
E em todas as vidas que a vida pudesse me oferecer.
Roberto Franklin Falcão da Costa
Cadeira Nº 40
Patrono: José Ribamar S. dos Reis