
Muito falamos dos fenômenos que se sucedem e dos quais tomamos conhecimento por livros de histórias e evidências científicas.
Saímos das sombras das cavernas para conglomerados urbanos atravessados por tecnologia. Mudamos a perspectiva de tempo e espaço atrelados a uma infinidade de aparatos que nos abstraem de nossas realidades.
Houve o tempo em que nos aproximamos como estratégia de sobrevivência. Essa máxima foi levada tão à risca que ultrapassamos a fronteira física para estarmos conectados para além do aqui e agora.
Estamos fisicamente na fila, no ônibus, no trem, no metrô, nas calçadas, nas praças, nas salas de espera lotadas, nos aviões e até no teatro e no cinema. Ao mesmo tempo não estamos.
O amálgama do olhar, do toque, da expressão facial, do sorriso já não é um ingrediente da interação no ambiente físico. As atenções estão voltadas para as telas, para quilômetros de distância.
As atrações das mais diversas nos prendem a roteiros de uma de vida desejada: a silhueta, o padrão de beleza, o negócio bem-sucedido, o estilo de vida, o carro da moda, os achadinhos essenciais que até ontem não precisávamos para viver.
Construímos arquétipos e nos travestimos deles para também estarmos devidamente apresentados nas vitrines virtuais, abrindo conexões com pessoas que nunca vimos e que, possivelmente, nunca veremos.
Seguimos tendências, ditamos modas, influenciamos e somos influenciados sabe-se lá o porquê, pelo quê, para quem? Fantoches de uma vida hiperconectada, que nos transforma em zumbis digitais.
Cabeças baixas para quem está diante de si, mas olhares atentos para cada deslizar de dedos na tela do celular. Um brilho hipnotizante, um clique, uma conferida, rola o feed para o próximo post.
Somos apanhados por algoritmos sob a falsa sensação de que definimos nossos próprios interesses. Seguimos sequências lógicas ou não, num emaranhado de conteúdos que já conhecem nossas rotinas e hábitos melhor que nós mesmos.
Minutos, horas, dias. Tempos preciosos são drenados tal qual as cargas das baterias. Mas com uma diferença fundamental: baterias podem ser recarregadas. E o tempo despendido?
Estamos perto fisicamente, mas distantes em pensamento. Conversamos com quem está longe e ignoramos quem está ao lado: desconhecidos, amigos, familiares, comuns.
Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA) e presidente da Academia Ludovicense de Letras. É membro da Academia Ludovicense de Letras, da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da Academia Literária do Maranhão e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.