Maré cheia, por Roberto Franklin

Como faço todas as manhãs, caminhei mais uma vez pela Litorânea, o céu parecia indeciso entre o fim da noite e a luz da manhã, vestido por nuvens densas que escondiam o sol, mas não conseguiam apagar sua presença. O vento soprava com força, espalhando o perfume salgado do mar, enquanto as ondas, crescidas pela maré cheia, avançavam contra as pedras como se quisessem abraçar a terra. Parei por alguns instantes, há muito aprendi que o mar nunca é apenas água, ele é memória, é confidente, é espelho daquilo que carregamos na alma.

Naquele instante, olhando o oceano inquieto, pensei em como o amor se parece com a maré. Não escolhemos a hora em que ele chega, nem conseguimos impedir que cresça, um dia ele é apenas uma pequena onda que toca nossos pés, no outro, já tomou conta de toda a praia do coração.
A maré cheia tem esse poder de transformar a paisagem, o que antes era areia seca desaparece sob as águas, as pedras tornam-se pequenas diante da força das ondas. Assim também acontece quando alguém |ocupa nossos pensamentos, o mundo continua o me |smo, mas nossos olhos passam a enxergá-lo de outra maneira, o amanhecer fica mais bonito, a música ganha outro sentido, o vento parece trazer um nome que o coração insiste em repetir.
Enquanto observava o mar revolto, imaginei nós dois caminhando pela areia observando as ondas que lavam nossos pés. Não precisaríamos conversar,1 existem silêncios que dizem muito mais do que qualquer palavra, bastaria sentir sua mão entrelaçada na minha, ouvir o barulho das ondas e deixar que o tempo seguisse seu curso.
O amor verdadeiro nunca teve pressa, ele se parece com o oceano: profundo, paciente e infinito. Às vezes parece calmo como uma manhã de verão; em outras, chega impetuoso, como a maré cheia que invade a praia sem pedir licença, mas, em qualquer de suas formas, permanece fiel à sua essência.
As ondas quebravam diante de nós uma após outra, nenhuma era igual à anterior, ainda assim, todas pertenciam ao mesmo mar. Talvez seja assim com os dias que vivemos ao lado de quem amamos, nenhum dia se repete, cada encontro traz uma emoção diferente, um sorriso novo, uma lembrança que será guardada para sempre.
Há quem veja apenas um mar agitado, eu vi uma declaração de amor escrita pela natureza, cada onda parecia repetir que amar é voltar, voltar aos mesmos olhos, ao mesmo abraço, à mesma voz. Assim como o mar nunca desiste da praia, o coração nunca desiste de quem verdadeiramente escolheu amar.
O horizonte desaparecia sob o cinza das nuvens, mas eu sabia que ele continuava ali, o amor também é assim, mesmo quando os dias escurecem, mesmo quando a distância se impõe ou o silêncio ocupa os espaços, ele permanece existindo, escondido apenas pelos temporais da vida. Nenhuma tempestade consegue apagar aquilo que foi escrito no coração.
Continuamos a caminhando lentamente, as luzes dos postes começavam a refletir sobre a espuma branca das ondas, criando pequenos brilhos sobre a água escura, parecia que o céu, impedido de mostrar suas estrelas, havia decidido espalhá-las sobre o mar.
Naquele momento compreendi que existem amores que são como marés, vão e voltam, outros, porém como o nosso, são como o oceano: permanecem, mudam de cor, de intensidade, de humor, mas jamais deixam de existir.
Voltei para casa levando comigo o cheiro do mar, o som das ondas e a certeza de que algumas pessoas entram em nossa vida da mesma maneira que a maré cheia invade a praia: silenciosamente, irresistivelmente e para transformar a paisagem do nosso coração.
E, desde então, toda vez que caminho pela Litorânea e encontro o mar cheio, tenho a impressão de que ele não está apenas conversando com a areia. Está sussurrando ao vento a mais antiga das verdades: o amor, quando é vberdadeiro, sempre encontra um caminho para voltar ao seu porto seguro.

Roberto Franklin Falcão da Costa
Cadeira Nº 40
Patrono: José Ribamar S. dos Reis