
Há quem diga que somos, enquanto humanos, livros abertos. A verdade é que estamos mais para uma biblioteca inteira flutuando em um mar de fake news sobre nós mesmos, deixando-nos tatear, intencionalmente, apenas algumas páginas.
Tentamos definir e somos definidos enquanto personalidade humana em uma conversa de café. Só que nada mais alcançamos além de nuvens que não se deixam abraçar e que mudam ao sabor do vento, com formas que mudam a partir das diferentes perspectivas.
Há quem passe a vida jurando que é puro fogo: impulsivo, intenso, incapaz de guardar desaforo. Contudo, numa tarde torrencial, as suas lágrimas se misturam à chuva que cai sem dar tréguas, após assistir a uma simples e comovente cena.
Onde foi parar o vulcão? Fez barulho, encontrou mar, esfriou. Agora apenas cinza e rocha fria.
O oposto também acontece. Aquele amigo que parece um céu de brigadeiro, mas que se revela uma liderança implacável quando o caos da turbulência se instala.
Por essas e outras nuances da personalidade humana, penso que ela nunca constitui um bloco de concreto acabado. Começa a ser esculpido na infância, fato, todavia permanece como uma massa de modelar, que nunca seca de verdade e se molda conforme a situação.
Nós nos dividimos em blocos, em gavetas, com intuito de facilitar a vida. Apegamo-nos a testes de personalidade na internet, inventamos siglas de quatro letras, dividimos o mundo entre introvertidos e extrovertidos, signos de terra e de ar.
É reconfortante achar que cabemos em uma caixinha com etiqueta. “Ah, eu sou assim porque sou capricorniano”, ou “desculpe, meu perfil é analítico”.
Entretanto, a alma humana é rebelde. Ela adora escapar pelas frestas dessas definições que criamos para não enlouquecer.
E dessa personalidade que forjamos dia após dia, o mais fascinante é a sua natureza social. Nós somos um espelho dos outros ou, pelo menos, das suas intenções impostas por códigos de conduta e convivência.
Você já reparou como a sua personalidade – e por vezes até mesmo a conduta – muda sutilmente dependendo de com quem você está falando ou na circunstância em que se encontra?
Com a avó, somos a doçura em pessoa; com os amigos de infância, resgatamos piadas internas e um vocabulário que beira o ridículo; no trabalho, vestimos a armadura da sobriedade.
Somos mais ou menos sociáveis a depender das circunstâncias: na fila do pão, no botequim, no restaurante, assistindo a uma partida de futebol, no trânsito. Qual dessas versões é a real?
Todas! E nenhuma delas sozinha. Somos uma colagem de tudo isso. O que vimos, ouvimos, fizemos e herdamos.
Carregamos o riso largo de um tio, a teimosia de uma mãe, o hábito de roer unhas que pegamos de um colega de escola e o gosto por café amargo que aprendemos a fingir que gostávamos até que, de fato, passamos a gostar.
Ao cabo, essa coisa chamada personalidade, pela qual nos identificam e definem, é uma colcha de retalhos, remendada às pressas enquanto a vida acontece. Pitadas de apreensões, emoções, reações sem uma receita definida, sem gabarito correto.
Somos atores improvisando no palco da vida, em que o roteiro se faz a partir de cada fala ou acontecimento. Vamos sendo construídos a cada ato, a cada fala, a cada gesto e expressão. E que bom que é assim: páginas em branco com possibilidades de novas leituras e escritas.
Talvez esteja aí a graça do mundo, justamente em nunca saber ao certo qual versão de nós mesmos vai acordar amanhã para tomar o café da manhã.
Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA) e presidente da Academia Ludovicense de Letras. É membro da Academia Ludovicense de Letras, da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da Academia Literária do Maranhão e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.