
Quando a luz decide nascer, por Roberto Franklin
Hoje, enquanto caminhava pela praia, parei diante de um espetáculo que a natureza insiste em repetir todas as manhãs, mas que nunca acontece da mesma maneira.
O sol estava lá, escondido atrás de uma muralha de nuvens. Parecia querer anunciar um novo dia, enquanto as nuvens, pesadas e escuras, insistiam em lhe negar passagem. Por alguns instantes, parecia que venceriam. A claridade diminuía, o horizonte permanecia tímido e a praia aguardava em silêncio o desfecho daquele duelo.
Foi então que compreendi que aquele não era apenas um nascer do sol.
Era uma lição.
As nuvens fizeram tudo o que podiam para esconder a luz. Reuniram-se, tornaram-se densas, cobriram o céu como quem desejasse prolongar a noite. Mas há uma força contra a qual nenhuma sombra consegue lutar para sempre.
Pouco a pouco, sem violência, sem pressa, alguns raios dourados encontraram pequenas frestas. Bastou uma, depois outra, e mais outra, a luz começou a desenhar contornos nas nuvens, transformando o cinza em ouro. O que parecia obstáculo tornou-se moldura para um dos amanheceres mais belos que já contemplei.
Naquele instante, o sol não venceu porque era mais forte, venceu porque nasceu para iluminar.
Enquanto observava o reflexo dourado sobre a areia molhada, pensei que a vida também é assim. Quantas vezes enfrentamos nossas próprias nuvens? Medos, perdas, decepções, doenças, incertezas… Há dias em que acreditamos que a escuridão permanecerá para sempre, que o horizonte nunca mais voltará a sorrir.
Mas a esperança se parece muito com o sol.
Ela pode até ficar escondida por algum tempo, porém jamais deixa de existir. Continua ali, esperando apenas a oportunidade de atravessar a menor das frestas.
A natureza nos ensina, todas as manhãs, aquilo que muitas vezes esquecemos: nenhuma nuvem possui o poder de apagar o sol. Ela apenas o oculta por alguns instantes.
Depois, inevitavelmente, a luz reaparece.
E quando isso acontece, percebemos que a noite nunca venceu. Apenas adiou, por alguns minutos, a chegada de um novo dia.
Foi olhando essa paisagem que compreendi mais uma vez que Deus escreve sermões silenciosos no céu. Basta levantar os olhos para perceber que toda manhã traz consigo uma promessa: por maiores que sejam as nuvens da vida, a luz sempre encontrará um caminho.
E quando ela encontra, não apenas nasce um novo dia.
Renasce também a esperança dentro de nós.
Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras
Cadeira Nº 40
Patrono: José Ribamar S. dos Reis