Quando uma canção inspira uma crônica, por Roberto Franklin

Quando uma canção inspira uma crônica, por Roberto Franklin

Hoje pela manhã, ao entrar no carro para ir à missa de domingo, aconteceu algo que transformou completamente o meu dia. Assim que liguei o rádio, começaram a tocar os primeiros acordes de “Eu Sei Que Vou Te Amar”. Confesso que permaneci em silêncio. Não era apenas mais uma música; era um encontro inesperado com uma obra que sempre ocupou um lugar especial no meu coração.
Sou um admirador de Vinicius de Moraes e Antônio Carlos Jobim. Há muito tempo me encanto com a capacidade que ambos tinham de transformar sentimentos em poesia e poesia em música. Enquanto dirigia rumo à igreja, ouvi cada verso com a atenção de quem o escutava pela primeira vez, embora já o conhecesse há tantos anos.
Durante a missa, as palavras da canção continuavam ecoando dentro de mim. Terminada a celebração, voltei para casa ainda pensando na genialidade daqueles dois homens. Perguntava-me como teria sido aquele momento em que decidiram escrever uma das mais belas declarações de amor da música brasileira. Será que a melodia nasceu primeiro? Ou teria sido Vinicius quem chegou com o poema já pronto, esperando que Tom Jobim lhe desse asas? Gosto de imaginar os dois conversando, trocando ideias, lapidando cada palavra e cada nota, sem talvez imaginar que estavam criando uma obra destinada à eternidade.
Ao chegar em casa, procurei novamente a letra da canção. Li mais uma vez o poema, agora sem a melodia, apenas saboreando cada palavra. E foi curioso perceber como um texto tão conhecido ainda conseguia despertar novas emoções. A cada verso, meus pensamentos se multiplicavam. As lembranças surgiam, as reflexões se aprofundavam e fui compreendendo que as grandes obras nunca dizem tudo de uma só vez. Elas revelam novos significados conforme nós mesmos vamos mudando ao longo da vida.
Foi então que fiz aquilo que sempre faço quando o coração começa a transbordar de ideias. Levantei-me, fui até o meu escritório, sentei-me diante da mesa e comecei a escrever.
Enquanto as palavras surgiam, compreendi que há músicas que ouvimos e esquecemos. Outras nos emocionam por alguns instantes. Mas existem aquelas raras canções que continuam conversando conosco mesmo depois que o último acorde termina. “Eu Sei Que Vou Te Amar” pertence a esse grupo.
Tom Jobim era um mestre das melodias. Vinicius de Moraes era um poeta capaz de traduzir em palavras aquilo que tantos de nós sentimos, mas não conseguimos dizer. Quando esses dois gigantes se encontraram, não produziram apenas uma música; construíram um patrimônio da cultura brasileira.
Vivemos tempos em que tudo parece passageiro. As relações se tornam rápidas, os compromissos frágeis e as promessas, muitas vezes, efêmeras. Em contraste, essa canção nos recorda que o amor também pode ser permanência, entrega e fidelidade.
Talvez seja exatamente por isso que ela continua emocionando gerações. Não importa a idade, a época ou o lugar. Sempre haverá alguém disposto a se deixar tocar por sua beleza.
Hoje compreendi, mais uma vez, que algumas músicas não pertencem apenas aos compositores. Elas passam a fazer parte da história de cada pessoa que as escuta com o coração aberto.
E foi exatamente isso que aconteceu comigo nesta manhã de domingo. Uma simples viagem de carro até a igreja terminou transformando-se numa longa conversa com a poesia, com a música e com as lembranças.
Ao final, percebi que eu não havia escolhido escrever esta crônica.
Foi ela que me encontrou, escondida entre os acordes eternos de Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes.

Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras
Cadeira Nº 40
Patrono: José Ribamar S. dos Reis

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