DIÁRIOS DE ADÃO E EVA – Mark Twain, por Alexandre Lago

         A criatura de cabelos longos estava sempre no caminho dele – queixa-se. Ela tinha o costume quase autoritário de dar nome a tudo o que encontrava. Até o lindo e musical nome de Éden, com que ele batizara o jardim, com suas cachoeiras e montanhas, ela rebatizou para Parque das Cataratas do Niágara.

Ela, a criatura, é bela. Chama-se Eva, nome que ele gostou e acha que vai “pegar”. Mas uma coisa nela o incomoda: não para de falar.

Eva é observadora de detalhes que a ele escapam ou nem sequer ocorrem. Acha curioso, por exemplo, que os tigres e leões comam apenas flores e grama, embora possuam dentes que indicam terem sido feitos para comer uns aos outros. Passa longo tempo a admirar-se no lago. Um dia quase se afogou. Sensação ruim, disse. E ficou com pena das criaturas que vivem debaixo d’água.

Ele passou uma temporada longe do jardim, explorando novas terras. Quando voltou, lá estava Caim, uma criaturinha que lhe pareceu semelhante a eles. Mas, por ser tão pequena, supôs tratar-se de uma nova espécie, talvez um peixe. Até a jogou na água, mas a criaturinha afundou, e Eva pulou atrás, retirou-o e desde então, protegeu-o com determinação.

Ele sonhava em obter outro exemplar daquela espécie. E, tempos depois, ao voltar de outra excursão exploratória, encontrou nova criaturinha, a quem chamaram Abel, e que Eva protegeu com o mesmo zelo Caim.

A mulher era sentimental: admirava as estrelas, as flores, as cores do céu, a lua; apegava-se aos animais. Além disso, era observadora e intuitiva, o que leva a descobertas sobre o funcionamento da natureza. Às vezes, ficava intrigada com os paradoxos: certa vez, subiu uma grande montanha e sentiu que o ar ficava mais frio, apesar de estar ficando mais próxima do sol. Um mistério!

Adão era prático e não depositava os valores da vida no coração. Para ele, a natureza não existia para ser contemplada, mas para servir de meio a algo útil: fazer cabanas, instrumentos, de caça e de proteção…

 

Muito tempo depois, ela, olhando em retrospecto, percebeu o quanto a vida no aprazível Éden havia sido boa. Amor, paz, conforto, contentamento imensurável, sem doenças nem marcas físicas assinalando a passagem do tempo. Isso havia sido o paraíso perdido.

Tudo ocorreu por um simples gesto de desobediência: o fruto proibido. Ela fora seduzida pela conversa filosófica de Satã sobre o bem e o mal, o sono eterno, a moral, coisas que, na época, não entendia. Mas adentrar no segredo da árvore da vida lhe fez conhecer. Com esse conhecimento vieram o suor do rosto para ter o que comer, as privações, os perigos… e o primeiro homicídio. Entre irmãos.

Adão e Eva. Todas essas coisas, desde os primeiros habitantes até a morte deles, ficaram registradas nos diários e fragmentos que deixaram.

 

                                               MARK TWAIN

 

         O que podemos chamar de “alegoria da alegoria” foi um bem-humorado recurso que o americano do Missouri encontrou para parodiar o primeiro casal e contar as naturais percepções e reações de cada gênero diante do novo: o desconhecido que era o mundo.

O escritor foi um aventureiro nos negócios, malsucedido em todos eles. Tentou várias profissões, mas foi ao se entregar à literatura que obteve sucesso como escritor e palestrante.

As passagens dos diários de Adão e Eva, de Satã e da autobiografia de Eva, dão perspectivas diferentes sobre os dias no Jardim e a Queda, dando boa noção das primeiras estações da saga humana.

O final inusitado mostra Adão, anônimo, milhares de anos depois, sentado em um banco de praça, observando seus descendentes. Sabe-se lá pensando o quê.

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