
Há pessoas que simplesmente passam por nossas vidas. Como se fossemos uma estação, elas chegam, permanecem por algum tempo, o suficiente para estabelecermos alguma conexão.
Um taxista, motorista de aplicativo, alguém na fila de espera, o bate-papo na mesa de bar, a companhia da cadeira poltrona ao lado em uma viagem de ônibus ou avião, a conversa despretensiosa sob uma marquise ao esperar a chuva passar.
Preto, branco, pardo, rico, pobre, alto, baixo, gordo ou magro. Estranhos de todos os perfis, mas com uma conexão comum: são pessoas, são humanos.
Puxamos conversas, falamos da política, futebol e dos mais diferentes assuntos que afetam o cotidiano.
Encontros desinteressados, sem querer saber de posições ou posses. Não esperam que sejamos fortes, inteligentes ou engraçados. É o momento em que somos apenas alguém, o outro, sem grandes expectativas.
Longe de carapaças que nos definem em outros ambientes, onde somos rotulados por imagens socialmente forjadas, diante de um estranho somos apenas nós. Sem julgamentos.
Apenas a sensação de que, por alguns minutos, fomos aceitos sem precisar representar papel algum. Por alguns minutos, temos a rara oportunidade de existir sem precisar corresponder a nenhuma expectativa.
Talvez seja justamente por isso que um encontro com um desconhecido possa ser tão libertador. O estranho não carrega a bagagem pesada daquilo que somos, da nossa história. Ele nos enxerga apenas no instante presente.
Cumprido seu papel, os estranhos seguem suas viagens por caminhos igualmente estranhos, sem saber que participaram da nossa história.
Tal qual, seguimos nossos caminhos sendo os estranhos para os outros.
É curioso perceber que, muitas vezes, nos sentimos mais livres diante de quem nunca vimos, do que diante daqueles que nos conhecem desde sempre.
A vida é feita desses paradoxos delicados. Passamos anos tentando ser vistos por quem está ao nosso lado, enquanto, às vezes, basta um breve diálogo com alguém que jamais voltaremos a encontrar para nos sentirmos verdadeiramente percebidos.
Quem sabe seja esse o maior presente que alguém pode oferecer a outro: a possibilidade de existir sem expectativas.
Os desconhecidos nos permitem apenas ser. Porque, quando ninguém espera que sejamos alguma coisa específica, finalmente descobrimos a liberdade de ser quem realmente somos.
Ironicamente, essa descoberta de quem somos costuma acontecer diante de alguém que jamais saberemos quem e cujo nome logo não mais será lembrado.
Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA) e presidente da Academia Ludovicense de Letras. É membro da Academia Ludovicense de Letras, da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da Academia Literária do Maranhão e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.