
Existem momentos na vida em que somos lembrados de que os sonhos não têm idade. Às vezes, eles surgem em pessoas que já acumularam décadas de experiência; outras vezes, aparecem nas mãos de uma criança que mal começou a escrever sua própria história de vida.
Foi exatamente esse pensamento que me veio à mente ao conversar com Nicholas, meu neto de apenas 10 anos, que acaba de lançar seu segundo livro de ficção, Marv-822 Explores.
Ao vê-lo falar sobre seu novo livro, percebi algo que não se aprende na escola nem se encontra facilmente nos livros: a alegria genuína de quem cria por prazer. Quando perguntei como se sentia ao ver sua obra publicada, sua resposta foi simples, direta e verdadeira:
“É uma sensação muito boa e eu estou muito feliz.”
Talvez aí esteja um dos segredos da infância. As crianças conseguem expressar grandes emoções com poucas palavras. E, por trás dessa frase aparentemente simples, existe uma conquista enorme. Afinal, quantas pessoas sonham em escrever um livro e nunca chegam a concluir uma única página? Nicholas, aos 10 anos, já publicou dois.
Conversando com ele, descobri que suas histórias nascem de muitas fontes. Livros, filmes e narrativas que despertam sua imaginação vão se transformando em novas ideias. Ele absorve pedaços do mundo ao seu redor e os reorganiza em aventuras próprias, como fazem todos os escritores, sejam eles iniciantes ou consagrados.
Foi assim que surgiu Marv, um curioso robô de madeira que protagoniza sua série literária. Em Marv-822 Explores, o personagem embarca em uma grande missão, mas, como acontece na vida real, o caminho é repleto de desafios inesperados. Missões secundárias surgem pelo percurso, novos obstáculos aparecem e cada etapa se transforma em uma oportunidade de descoberta.
Enquanto ouvia Nicholas falar sobre seu personagem, percebi que ele não vê a escrita apenas como uma atividade escolar ou um passatempo. Para ele, criar histórias é uma aventura completa. Quando perguntei do que mais gostava no processo de escrever, imaginei que escolheria apenas uma parte. Talvez criar personagens ou inventar aventuras. Mas sua resposta revelou algo interessante: ele gosta de tudo.
Gosta de imaginar personagens, de criar desafios e de desenvolver a história. Em outras palavras, gosta de construir mundos.
Talvez essa paixão tenha relação com os livros que mais aprecia. Entre seus favoritos estão The Wild Robot, I Survived e Diary of a Wimpy Kid. São obras que transportam seus leitores para outras realidades, despertam emoções e mostram que a imaginação pode nos levar muito além dos lugares onde estamos.
Mas nem tudo acontece apenas por inspiração. Descobri que Nicholas já possui hábitos que lembram os de escritores experientes. Quando uma ideia surge durante a aula, ele não a deixa escapar. Carrega consigo um diário onde registra pensamentos, cenas e possibilidades. Mais tarde, em casa, aquelas anotações ganham forma e se transformam em capítulos.
Achei curioso perceber que a criatividade, mesmo em uma criança, já caminha de mãos dadas com a disciplina.
Também perguntei sobre as dificuldades encontradas durante a escrita. Afinal, todo autor enfrenta obstáculos. Nicholas respondeu que as partes mais difíceis são o começo e o final da história. O início porque é preciso abrir as portas do mundo que será criado. O final porque é necessário encontrar uma maneira satisfatória de encerrá-lo. Já o meio da narrativa, onde as aventuras acontecem, é sua parte favorita.
Enquanto ele falava, pensei que essa observação vale não apenas para os livros, mas para a própria vida. Muitas vezes, os começos e os finais são os momentos mais difíceis. É no percurso, no meio da caminhada, que encontramos as experiências mais interessantes.
Outro aspecto que me chamou a atenção foi a importância da família nessa trajetória. Quando Nicholas decidiu escrever seus livros, todos ficaram surpresos e felizes. Mais do que isso, ofereceram apoio, incentivo e ajuda sempre que necessário. Nenhum sonho floresce sozinho. Toda criança precisa de alguém que acredite nela antes mesmo de ela acreditar em si mesma.
Ao final da conversa, pedi que deixasse uma mensagem para outras crianças que sonham em escrever. Sua resposta foi curta, mas carregada de sabedoria:
“Nunca desistam e continuem sempre lendo.”
Talvez seja um dos melhores conselhos que um escritor possa dar, independentemente da idade. Quem lê amplia horizontes, alimenta a imaginação e descobre que cada livro é uma porta aberta para novas possibilidades.
E quando imaginei que a conversa estava chegando ao fim, veio a revelação que mostra que a imaginação de Nicholas continua em pleno movimento. O próximo livro já está a caminho. Ele até mesmo escolheu o título: Marv-822 Finds.
Sorri ao ouvir isso. Porque percebi que, para Nicholas, publicar um livro não é o ponto final de uma história. É apenas o começo da próxima.
E talvez seja justamente essa a beleza da infância: acreditar que sempre existe uma nova aventura esperando na página seguinte.
Roberto Franklin Falcão da Costa
Cadeira Nº 40
Patrono: José Ribamar S. dos Reis