

Há manhãs que parecem ter sido desenhadas por mãos invisíveis, como se Deus, antes de despertar o mundo, resolvesse dedicar alguns minutos à contemplação da própria obra. São manhãs em que o céu se veste de um azul profundo, o vento sopra com delicadeza e o mar assume a serenidade de quem conhece todos os segredos da Terra.
Foi numa dessas manhãs que segui pela avenida à beira-mar.
O carro avançava suavemente, quase sem pressa, como se também desejasse apreciar a paisagem. À minha esquerda, o oceano se estendia até onde os olhos podiam alcançar. À direita, a cidade ainda despertava, tímida, enquanto o dia começava a escrever suas primeiras linhas.
Então meus olhos foram atraídos pelo espetáculo que acontecia diante de mim.
O sol já havia subido acima do horizonte e derramava sua luz sobre as águas. Não era uma simples claridade. Era algo maior. Era como se cada raio fosse um pincel mergulhado em tinta dourada, espalhando brilho sobre a imensa tela azul do oceano. O mar cintilava em milhares de pontos luminosos, como um campo de estrelas que tivesse descido do céu para repousar sobre as ondas.
Naquele instante, tive a impressão de que o sol pintava de dourado o mar.
Pincelada após pincelada.
Sem pressa.
Sem ruído.
Sem esperar aplausos.
Apenas cumprindo sua missão diária de transformar o comum em extraordinário.
Ao longe, uma pessoa caminhava pela orla. Talvez estivesse exercitando o corpo. Talvez estivesse organizando pensamentos. Talvez nem percebesse a grandiosidade daquele cenário. Muitas vezes somos assim. Passamos correndo pelos milagres cotidianos sem lhes dar atenção. Acostumamo-nos ao nascer do sol, ao brilho do mar, ao voo dos pássaros e ao vento que refresca o rosto. E aquilo que deveria nos encantar torna-se apenas parte da rotina.
Mas a natureza não se importa com nossa distração.
Ela continua oferecendo seus espetáculos gratuitamente.
Todos os dias.
O mar continua indo e vindo em suas marés eternas.
O vento continua espalhando histórias invisíveis pelo litoral.
E o sol continua sua silenciosa tarefa de iluminar o mundo.
Enquanto observava a paisagem, notei o espelho retrovisor do carro refletindo o caminho já percorrido. Achei curioso como aquele pequeno espelho parecia simbolizar a própria vida. Nele estava o passado, os lugares por onde passei, as estradas vencidas, os momentos que ficaram para trás. À frente, porém, estava o futuro, aberto como aquela avenida que acompanhava a linha do oceano.
Talvez viver seja exatamente isso.
Seguir adiante sem esquecer o que ficou no espelho.
Guardar as lembranças sem deixar de caminhar.
Reconhecer que o passado tem seu valor, mas que a beleza do presente acontece sempre à nossa frente.
E naquele presente havia apenas o mar, o céu, a estrada e o sol.
Nada mais.
Nada menos.
E, paradoxalmente, aquilo era tudo.
O brilho dourado sobre as águas parecia criar uma estrada luminosa rumo ao horizonte. Uma estrada impossível de percorrer, mas irresistível de contemplar. Fiquei imaginando quantos sonhos já navegaram por aquele mar, quantas despedidas, quantos reencontros, quantas promessas foram feitas diante daquela mesma paisagem.
O oceano guarda memórias que ninguém conhece.
Ele testemunha gerações inteiras passarem por suas margens. Vê crianças crescerem, adultos envelhecerem e avós contarem histórias aos netos. E permanece ali, imenso e paciente, lembrando-nos da pequenez de nossas preocupações diante da grandeza da existência.
Talvez por isso o mar nos acalme.
Ele nos ensina que tudo passa.
As tempestades passam.
Os ventos fortes passam.
As ondas agitadas passam.
Mas a beleza permanece.
Assim como aquela manhã.
Uma manhã aparentemente comum, igual a tantas outras que já existiram e ainda existirão. No entanto, para quem se permitiu observá-la, ela tornou-se única.
Porque a felicidade, muitas vezes, não está nos grandes acontecimentos que esperamos ansiosamente. Ela mora nesses instantes simples que quase deixam de ser percebidos: uma estrada à beira-mar, um céu sem nuvens, o reflexo da luz sobre as águas e a certeza silenciosa de estar vivo para contemplar tudo isso.
Quando continuei minha viagem, a paisagem ficou para trás. O carro seguiu seu caminho e o dia assumiu suas obrigações habituais. Mas algo daquela cena permaneceu comigo.
Permaneceu porque há imagens que não se apagam.
Há paisagens que se transformam em lembranças.
E há manhãs em que o sol pinta de dourado o mar apenas para nos recordar que a vida, apesar de todas as suas pressas e dificuldades, ainda é capaz de oferecer momentos de pura poesia.
Roberto Franklin Falcão da Costa
Cadeira Nº 40
Patrono: José Ribamar S. dos Rei