
Havia algo mágico na forma como o mundo lá fora silenciava quando a gente caminhava junto pelas ruas de Lima. O relógio marcava aquelas horas em que a capital peruana parecia respirar aliviada, despida do barulho e da pressa do dia, enquanto a brisa suave do Pacífico trazia o perfume distante do mar. Sob a luz difusa e dourada dos postes, nossos passos encontravam um ritmo próprio, compassado e leve, como se o tempo estivesse disposto a abrir uma exceção só para nós.
Olhando para o chão, o que restava do nosso cansaço físico virava poesia: eram duas sombras longas, esticadas sobre os ladrilhos frios, coladas uma na outra de um jeito que a própria realidade poucas vezes permitia. Eram os nossos contornos projetados pela luz, mas, acima de tudo, era a aproximação de dois mundos que decidiram caminhar no mesmo sentido. A minha silhueta e a de Luciane se fundiam no asfalto, unidas por um desejo silencioso de não ter pressa para chegar a lugar nenhum.
Luciane ria de algo banal, um comentário solto que o vento da noite limenha tratava de espalhar, e o som da risada dela era o único detalhe que importava naquele cenário vasto e adormecido. Ao nosso redor, a cidade estendia seu manto de mistério, transformando a calçada comum em um território particular. Lá na frente, vultos distantes passavam como sombras sem nome, lembrando-nos de que o mundo continuava girando lá fora, mas, para nós, o universo inteiro cabia naquele curto espaço entre os nossos passos e o reflexo da luz no chão.
Não precisávamos de grandes cenários ou de promessas solenes. Bastava a certeza mútua de que, enquanto as nossas sombras andassem juntas daquele jeito, o chão sob os nossos pés estaria sempre firme, e qualquer caminho por entre as ruas históricas e modernas de Lima, por mais escuro que parecesse, ganharia a cor exata da nossa cumplicidade.
Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras
Cadeira Nº 40
Patrono: José Ribamar S. dos Reis