Quando o domingo chega… por Roberto Franklin
Há algo diferente no domingo. Não sei explicar exatamente o quê, mas desde menino eu sentia que esse dia carregava um significado especial. O domingo sempre chegava mais devagar, como se o tempo resolvesse caminhar sem pressa. As ruas pareciam mais silenciosas, o café da manhã demorava mais à mesa, e o cheiro do almoço se espalhava pela casa como um convite para que ninguém tivesse pressa de ir embora.Naquela época, domingo era sinônimo de família. Era o dia de reunir pais, irmãos, avós, tios, primos e amigos. As conversas se prolongavam por horas, as crianças brincavam sem se preocupar com o relógio, e os mais velhos contavam histórias que, muitas vezes, já tinham sido repetidas dezenas de vezes, mas que continuávamos ouvindo com o mesmo carinho.Hoje, olhando para trás, percebo que não era apenas um almoço. Era um ritual de amor. Era um momento em que os laços familiares eram fortalecidos sem que ninguém percebesse. Naquele tempo não existiam celulares disputando nossa atenção, nem redes sociais ocupando o lugar das conversas. O maior entretenimento era estarmos juntos.
Com o passar dos anos, muita coisa mudou.
Os filhos cresceram, cada um seguiu seu caminho. Os netos chegaram trazendo uma nova alegria para a casa. Alguns familiares partiram, deixando apenas a saudade e as lembranças. Outros moram longe e já não conseguem estar presentes todos os domingos. A mesa continua sendo posta, mas algumas cadeiras permanecem vazias. E essas ausências falam muito mais alto do que qualquer palavra.
Mesmo assim, continuo esperando pelo domingo.
Não apenas pelo descanso do corpo, mas porque ele representa uma oportunidade de reencontro. Reencontro com aqueles que amo, comigo mesmo e, principalmente, com Deus.
Domingo é o dia em que a alma parece pedir silêncio. É o dia em que a fé ganha mais espaço no coração. É quando entro na igreja e percebo que a correria da semana ficou do lado de fora. Durante alguns instantes, todas as preocupações diminuem de tamanho diante da presença de Deus.
É impossível agradecer por tudo?
Talvez sim. São tantas as graças recebidas que nem conseguimos enumerá-las. A saúde que muitas vezes esquecemos de valorizar. A família que Deus nos concedeu. Os amigos verdadeiros. O trabalho que nos dignifica. Os desafios que nos fortaleceram. As lágrimas que nos ensinaram a ser mais humanos. Até as dificuldades, que um dia tanto nos fizeram sofrer, hoje percebemos que também contribuíram para nos tornar quem somos.
Mas existe uma pergunta que sempre me acompanha quando o domingo chega:
Será que este é realmente um dia de descanso?
Para muitos, talvez seja.
Para outros, não.
Há quem trabalhe justamente aos domingos. Há mães que continuam cuidando dos filhos sem descanso. Há profissionais da saúde, policiais, bombeiros, motoristas, funcionários de restaurantes e tantos outros que fazem desse dia apenas mais uma jornada de trabalho.
E mesmo para aqueles que permanecem em casa, a mente dificilmente descansa. Pensamos nas contas, nos compromissos da segunda-feira, nos problemas da família, nas decisões que precisam ser tomadas. O corpo até repousa, mas a cabeça continua trabalhando.
Foi então que compreendi uma coisa.
O verdadeiro descanso não acontece quando deixamos de trabalhar.
Ele acontece quando conseguimos colocar nossa vida nas mãos de Deus.
Quando entendemos que existem batalhas que não dependem apenas da nossa força. Quando aceitamos que nem tudo está sob o nosso controle. Quando confiamos que Deus continua conduzindo nossos passos, mesmo quando não enxergamos o caminho.
Esse talvez seja o maior presente do domingo.
Ele nos convida a desacelerar.
A olhar mais para dentro do que para fora.
A desligar um pouco o barulho do mundo para ouvir a voz da consciência.
A abraçar quem ainda está ao nosso lado, porque ninguém sabe quantos domingos ainda teremos juntos.
A pedir perdão enquanto há tempo.
A dizer “eu te amo” sem esperar uma ocasião especial.
A visitar quem está sozinho.
A telefonar para um amigo.
A brincar com os netos.
A sorrir mais.
A reclamar menos.
A agradecer muito mais.
Com o passar dos anos, aprendi que a vida não é medida pela quantidade de domingos que vivemos, mas pela maneira como escolhemos vivê-los.
Cada domingo é uma página em branco que Deus coloca diante de nós.
Podemos preenchê-la com reclamações ou com gratidão.
Podemos viver presos às preocupações ou desfrutar da companhia daqueles que amamos.
Podemos apenas descansar o corpo ou permitir que nossa alma também encontre paz.
Hoje, quando o domingo chega, meu coração faz uma oração silenciosa.
Agradeço pela minha família, pelos meus filhos, pelos meus netos, pelos amigos que a vida me deu e por todas as pessoas que fizeram parte da minha caminhada. Agradeço pelos que continuam comigo e também pelos que já partiram, mas permanecem vivos nas minhas lembranças.
Peço apenas que Deus me conceda sabedoria para valorizar cada encontro, porque um dia compreenderemos que o maior patrimônio que construímos não foram os bens materiais, mas os momentos compartilhados com aqueles que amamos.
E, quando a noite de domingo começa a anunciar uma nova semana, já não sinto apenas a expectativa das responsabilidades que virão. Sinto, acima de tudo, a serenidade de quem entende que viver é um privilégio.
Se domingo é realmente um dia de descanso?
Talvez para o corpo, nem sempre.
Mas pode ser, sem dúvida, o mais belo descanso para a alma.
E enquanto Deus continuar me concedendo o privilégio de abrir os olhos a cada novo domingo, terei sempre um motivo para agradecer, reunir minha família, renovar minha esperança e seguir em frente com a certeza de que a vida vale a pena quando é vivida com fé, amor e gratidão.
Roberto Franklin Falcão da Costa é Vice-Presidente da Academia Ludovicense de Letras
Cadeira Nº 40
Patrono: José Ribamar S. dos Reis