

Há mais de quinze anos, escolhi a sexta-feira para ser o dia dos meus netos. Na época, talvez eu não tivesse a dimensão exata do que aquela decisão representaria no futuro. Parecia apenas uma forma de reunir a família, de criar um momento especial em meio à correria da vida. Mas, com o passar dos anos, percebi que estava construindo muito mais do que um encontro semanal: estava construindo memórias, fortalecendo laços e tecendo uma história de amor que atravessa gerações.
A vida é feita de escolhas. Algumas passam despercebidas e outras deixam marcas profundas em nossa caminhada. Escolher uma sexta-feira para reunir meus netos foi uma dessas decisões simples que se transformaram em um dos maiores presentes que a vida me concedeu.
Durante esses anos, vi muita coisa acontecer. Vi crianças pequenas chegarem correndo para me abraçar, com os olhos brilhando de alegria. Vi os primeiros passos inseguros se transformarem em caminhadas firmes. Vi os rostinhos mudarem, as vozes ganharem novos tons e as personalidades florescerem. Vi a infância dar lugar à adolescência e, para alguns, a adolescência abrir caminho para a vida adulta.
Cada neto trouxe consigo um universo único. Alguns mais falantes, outros mais observadores. Alguns cheios de energia, outros mais tranquilos. Cada um com seus sonhos, suas dúvidas, seus talentos e suas maneiras particulares de demonstrar carinho. E eu tive o privilégio de acompanhar um pouco de cada uma dessas histórias.
As sextas-feiras nunca foram apenas sobre refeições compartilhadas. Elas sempre foram sobre presença. Sobre sentar à mesa e ouvir como foi a semana. Sobre celebrar pequenas conquistas que, aos olhos do mundo, poderiam parecer simples, mas que para um avô representam verdadeiros tesouros. Foram momentos de risadas espontâneas, de brincadeiras, de fotografias, de histórias repetidas inúmeras vezes e que, ainda assim, continuam sendo ouvidas com carinho.
Também houve momentos difíceis. Afinal, nenhuma família atravessa tantos anos sem enfrentar desafios. Houve ausências, preocupações, mudanças e dias em que a saudade se fez presente. Mas até nesses momentos as sextas-feiras cumpriram seu papel: lembraram-nos de que pertencemos uns aos outros e de que o amor da família é um abrigo seguro diante das tempestades da vida.
Ao olhar para trás, percebo que essas reuniões foram muito importantes não apenas para os meus netos, mas também para mim. Eles cresceram, aprenderam e seguiram seus caminhos. Eu, por minha vez, aprendi a enxergar o mundo através dos olhos deles. Aprendi com suas perguntas, suas descobertas e sua capacidade de encontrar alegria nas coisas mais simples.
Hoje, quando penso nas sextas-feiras dos netos, não vejo apenas uma tradição familiar. Vejo uma coleção de lembranças que nenhuma fotografia consegue guardar por completo. Vejo abraços que aqueceram o coração, conversas que deixaram ensinamentos, gargalhadas que ecoam na memória e momentos que ajudaram a construir a identidade da nossa família.
O tempo segue seu curso. As crianças crescem, os compromissos aumentam e a vida muda constantemente. Mas existe algo que permanece: a certeza de que cada sexta-feira vivida ao lado dos meus netos valeu a pena. Cada encontro foi uma semente plantada no terreno fértil do afeto, e hoje posso contemplar os frutos dessa colheita com gratidão.
Se alguém me perguntasse qual foi uma das decisões mais bonitas que tomei na vida, eu responderia sem hesitar: escolher uma sexta-feira para reunir meus netos. Porque, ao longo de mais de quinze anos, descobri que a felicidade não está nos grandes acontecimentos, mas na soma dos pequenos momentos compartilhados com aqueles que amamos.
E assim, enquanto houver uma sexta-feira chegando no calendário, haverá também a esperança de mais um encontro, mais uma história para contar, mais um abraço para guardar e mais uma oportunidade de agradecer pela bênção de ser avô e de ter meus netos como parte tão rica da minha vida.
Roberto Franklin Falcão da Costa
Cadeira Nº 40
Patrono: José Ribamar S. dos Rei