
Há algo curioso no jeito brasileiro de demonstrar amor à pátria.
Em poucos lugares do mundo se vê uma transformação tão repentina quanto a que acontece durante uma Copa do Mundo, de um dia para o outro, as ruas ganham novas cores, as casas são enfeitadas de verde e amarelo, bandeiras aparecem nas janelas, nos muros, nas varandas e até nos postes, os carros circulam com adesivos, fitas e bandeirinhas tremulando ao vento, as pessoas vestem a camisa da seleção com orgulho e falam do Brasil como se fossem parte de uma única e grande família.
Durante algumas semanas, parece que o país inteiro descobre um patriotismo adormecido.
O vizinho que nunca comentou sobre a bandeira nacional agora a exibe na fachada de casa, o comerciante que raramente fala sobre o Brasil decora sua loja com as cores nacionais, crianças pintam o rosto, adultos cantam o hino e desconhecidos se abraçam diante de um gol.
É uma festa bonita, uma demonstração de união rara em tempos de tantas diferenças.
Mas, quando o último jogo da seleção brasileira termina, algo estranho acontece.
As bandeiras desaparecem as faixas são recolhidas, os adesivos começam a ser arrancados dos carros as ruas voltam à aparência habitual, o verde e amarelo retornam aos armários, o patriotismo, que parecia tão intenso, entra novamente em silêncio.
Fica a impressão de que, para muitos brasileiros, a seleção de futebol se tornou a principal tradução do sentimento nacional.
Não há nada de errado em amar o futebol, afinal, ele faz parte da nossa história, da nossa cultura e de algumas das mais belas lembranças coletivas que possuímos. O futebol já nos deu heróis, alegrias e momentos que atravessaram gerações.
O que chama a atenção é perceber que, muitas vezes, a bandeira nacional parece pertencer mais aos estádios do que ao cotidiano do país.
Talvez o verdadeiro patriotismo não esteja apenas nos dias de Copa, quando a vitória de onze jogadores desperta emoções intensas, talvez ele esteja também nos dias comuns, quando ninguém está olhando. Está no respeito às leis, no cuidado com as cidades, na honestidade das pequenas atitudes, na valorização da educação, da cultura e do trabalho.
Amar um país é mais do que torcer por ele.
É desejar que ele seja melhor todos os dias, e não apenas durante noventa minutos de uma partida decisiva.
A Copa do Mundo passa, os campeões mudam, os ídolos se aposentam, as bandeiras são guardadas.
Mas a nação continua ali, esperando que o sentimento que surge a cada quatro anos encontre espaço para viver também nos outros mil e quatrocentos e poucos dias que separam uma Copa da outra. Talvez, nesse dia, descubramos que o patriotismo não veste apenas a camisa da seleção. Ele veste a camisa do próprio Brasil.
Roberto Franklin Falcão da Costa
Cadeira Nº 40
Patrono: José Ribamar S. dos Reis